domingo, 10 de fevereiro de 2008

O bispo Rowan Williams terá que encarar o facto de que é possível que algumas opiniões dele não sejam compatíveis com a posse de um cérebro pensante

E quem é o Rowan Williams? Duas respostas possíveis:

1. Um energúmeno anglicano vestido de mulher mal vestida e que merecia mas era andar de burka para o resto da vida e com uma mordaça na boca para não dizer mais asneiras

2. Uma COISA que envolve várias palavras que usei no post da Bússola, mas sem os asteriscos e em várias combinações possíveis.

A fronha do tipo é esta... o que só por si não é grande coisa. Mas o aspecto não é tudo: ele é mesmo totó a precisar de fazer a barba e as sobrancelhas!



Transcrevo parte da reportagem da BBC sobre o assunto

“Dr Rowan Williams said the UK had to "face up to the fact" some citizens did not relate to the UK legal system.

Dr Williams argues that adopting parts of Islamic Sharia law would help maintain social cohesion.

For example, Muslims could choose to have marital disputes or financial matters dealt with in a Sharia court.

He says Muslims should not have to choose between "the stark alternatives of cultural loyalty or state loyalty". ”


Há imensas pessoas que não se relacionam muito bem com o sistema legal em vigor: eu duvido que qualquer ladrão concorde com o facto de ser proibido roubar. Mas não é por isso que vai ser permitido roubar, certo? Matar devia ser permitido, é o que pensa qualquer homicida. Mas isto não está certo nem socilamente aceitável, pois não?

A Sharia é a lei islâmica. Acontece que a única religião verdadeiramente monocéfala (em teoria) é o catolicismo, em virtude da existência do Papa e do Estado do Vaticano. Pode argumentar-se que o católico obedeceria cegamente às instruções do Vaticano para ser verdadeiramente considerado católico. Se assim fosse, o número de católicos estaria reduzido a meio milhar (para ser simpática e não dizer meia dúzia) e o número é manifestamente insuficiente para considerar todos os clérigos. Sendo assim, o que é um católico? Na sequência desta questão, o que é um muçulmano e o que pensa um muçulmano e qual é a lei de um muçulmano?

Como será assim de esperar que uma religião mais fragmentada consiga reunir consenso à volta de uma coisa tão complicada como a Sharia? Pois se em países mairitariamente islâmicos (e nem todos laicos) ela é aplicada de modo diferente! O exemplo mais famoso porque mais infame foi o Afeganistão dos Taliban, onde se cobriram as mulheres com burkas, onde se efectuaram execussões públicas, se apedrejaram mulheres até à morte, se cortaram membros, se obrigou os homens a andar de barba grande, se proibiu a fotografia e toda a representação de seres vivos, se destruiram os budas de Bamiyan... é preciso continuar? Também me parecia que não.


Claro que o senhor bispo disse, que “por exemplo” as coisas a resolver seriam disputas maritais e económicas. Ora um país tem uma lei. É uma das coisas que o define. O ter que escolher entre "the stark alternatives of cultural loyalty or state loyalty" não deveria ser uma questão sequer: vive-se num país em que estas leis são do conhecimento geral e aceitam-se. A não aceitação origina evolução das leis, por consenso geral ou prisão.

Ora aí bate parte do ponto: não sei se por vergonha colonialista (culpa de patrão branco), por necessidade de acomodar grande quantidade de paquistaneses e indianos e seu dinheiro (sim, porque há muito dinheiro envolvido), o Reino Unido foi muito flexível em relação a alguns hábitos destas pessoas. Demasiado flexível, na minha opinião (mas vozes de burro não chegam ao céu). Assim, é possível ver uma mulher de mini-saia tipo cinto, sandálias e top a revelar grande parte dos seios (mesmo no Inverno e com temperaturas negativas, mas isso é outra história) caminhar ao lado de uma mulher com uma burka (isto se for um macho a acompanhá-la, 2 passos ou mais à frente).

Chamem-me o que quiserem, mas eu acho que quem está certa é a da mini-saia. Nem que tenha as pernas gordas. É também possível ver filhas de paquistaneses (mas inglesas, para todos os efeitos) licenciadas, completamente aculturadas à Inglaterra das mini-saias casarem à força com o primo direito que está no Paquistão, não fala inglês e sabe ler (só), porque foi isso que os pais de ambos tinham combinado antes de ambos nascerem e a opinião delas não foi tida em conta. É também possível ver (mas isto não vi, só ouvi falar) ingleses (pessoas que nasceram em Inglaterra) que não falam inglês porque estão fechados na sua comunidade e vão a escolas islâmicas, com a bênção do estado inglês. Integração, dizem eles. Uma merda, digo eu!

Chamem-me racista, chamem-me o que quiserem, mas isto não está certo. Uma vez em Inglaterra ia sendo cruxificada por um monte de tugas de esquerda quando disse que se me fosse dado o poder proibiria tanto o lenço islâmico (falha-me o nome técnico) como a burka. Que eu tinha a mania que estava certa, que não tinha respeito pelos costumes dos outros, pela cultura dos outros e mais uma série de pedras que me atiraram. E sabem que mais? Postas as coisas dessa maneira é mesmo verdade! E devia ser a posição de todos nós, que fomos criados em liberdade, mas ainda com capacidade de ver um outro regime castrante: o anterior ao 25 de Abril. Porque há o pormenor de esta ser a minha/nossa cultura, fruto de séculos de luta pela liberdade do homem das grilhetas de maneiras de pensar opressoras. Particularmente a luta pela liberdade da mulher. E ver aqueles corvos de um lado para o outro 2 passos atrás do marido feria-me os olhos e a minha consciência feminina (ou feminista? Não sei!).

Voltando ao Dr. Rowan Williams, o que ele disse tem a sua razão de ser, mas pela incapacidade que o seu povo teve em receber estes indivíduos. Inglaterra tanto é um “melting pot” como uma sopa com azeite a mais: o azeite e a água não são miscíveis e repelem-se. E há várias bolhas de azeite. Algumas são tipos que simplesmente querem ver as mulheres cobertas para os outros homens não as poderem cobiçar (muitos portugueses não desdenhariam dessa hipótese), outras são tipos a quem foi incutido um ódio ao Reino Unido, ao Ocidente e à liberdade de algumas pessoas respirarem (o ódio geral, contrário em si mesmo ao Islão), que vai ao Paquistão treinar para ser terrorista.

Ou seja, Dr. Rowan Williams, começa-se com disputas maritais e financeiras e acaba-se onde? Fazer o bem demora séculos ou mais; fazer o mal é num instante. O Afeganistão é a bandeira deste retrocesso. Mas não é a única. Na Turquia vai ser permitido o uso de véu em Universidades. As mulheres que andam de cabeça descoberta sentem-se mal e andam a adivinhar o pior. Nós, as que discutimos o ponto ideal do metrossexualismo e o tamanho dos saltos altos devíamos estar solidárias com elas. Falhando tudo, para podermos falar com elas destas banalidades numa liberdade despreocupada e inconsequente.

O Dr Rowan Williams também não ouviu discursos que eu ouvi a pessoas a dizer que antigamente a homossexualidade era crime e agora não era, pelo que quando tal até o abuso a menores seria permitido (essas pessoas não sabiam que isso já era verdade na Casa Pia). Ora um dos argumentos que não aceito a alguns religiosos é que sem religião tudo é relativo. Não é verdade: o que é relativo é a infalibilidade de posições religiosas e a crença de que ser religioso faz a pessoa moralmente superior. Que não é o mesmo que a infalibilidade de Deus: Ele não se pronunciou mais que um par de vezes (para quem acredita) e a religião é feita de homens. Falíveis. Uns mais que outros. E alguns são mesmo mas mesmo muito falíveis. Tão falíveis que devia ser crime.

“Dr Rowan Williams told BBC Radio 4 on Thursday that he believed the adoption of some Sharia law in the UK seemed "unavoidable".

O que me parece “unavoidable” é pensar seriamente no mundo que queremos. E eu recuso-me a aceitar que uma religião ou outro qualquer grupo possa ter um tratamento diferente perante a lei. Porquê? Por causa precisamente desta recusa de relativismo: estamos organizados primeiramente como sociedade, só depois como igrejas. E é opcional, parecendo que não. Ri-me da "scalet letter" do Ludwig (um "A" que ele tem debaixo do perfil), mas agora começo a achá-la simpática. Sendo (mais ou menos) religiosa, identifico-me com ela.

Em mais uma acha para o fogueira, Shaista Gohir, uma “government advisor” de assuntos de mulheres muçulmanas diz:

"Various polls have so far indicated that around 40% want Sharia law. Although this is a significant percentage, why ignore the views of the other 60%?"

Sendo um argumento aparentemente sensato, é uma grandecíssima bosta de argumento, quase tão grande como a do bispo! Carago, agora legisla-se por popularidade? Que é isto? Ora se uma sociedade que acolheu muçulmanos de diversas proveniências não conseguiu pô-los a partilhar os valores humanistas que diz ter (e tem!), algo correu muito mal na integração. Isto é racismo: deixa os selvagens governarem-se pelas leis deles! Isto é culpa de colonizador. Que se vê agora colonizado, da pior maneira possível. Isto é o bom senso assassinado. Isto é não pensar na sociedade que se quer deixar às gerações futuras.

Abobrinha não é só badalhoquice. E está provado que há pessoal mais badalhoco, e ainda por cima sem uma ponta de piada.

O que o bispo Rowan Williams está a precisar é de uma burka. Ou de uma depilação da zona genital... com um cortador de relva... com as lâminas rombas! Eu ofereço-me como voluntária (especialmente por não ter experiência com cortadores de relva, mas isso é mesmo para tornar a coisa mais complicada)... eu às vezes sou um bocado sádica!

5 comentários:

Joaquim Simões disse...

Abobrinha:
VOTO EM TI, CARAGO! AMANDA-LHES!
Eu cá, se me sinto mal num sítio qualquer, das duas uma: ou não vou para lá ou, se tenho que lá ir, respeito os costumes de quem me acolhe. O que é, naturalmente, aliás, não só o que se espera de mim, como a cortesia mínima que posso ter. Só um matarruano não percebe isto, e a esquerda palermóide deseja esquecê-lo para poder continuar a reinvindicar a função de dirigente e de entidade paternal educadora dos oprimidos. Ignorando hipocritamente que são precisamente os tipos de mentalidade mais reaccionária os que identificam o matarruanismo com os costumes do "bom povo". Esses que, dando "graxa" ao que de pior se foi gradualmente entranhando na cultura desses povos e fazendo disso mesmo o espelho da sua "salutar diferença" com o modo de viver próprio das sociedades industrializadas, se transformam em paladinos defensores do que de pior há na humanidade. A esquerda palermóide, porém, é composta por simplórios que, se não se sentirem os iluminados conhecedores dos "amanhãs que cantam" do planeta, não aguentam a visão da vida como permanente incógnita e insegurança. Limita-se por isso a aplicar a receita fácil que lhes dá segurança psicológica, deixando de lado tudo (e que é quase tudo...) o que a contradiz: os maus não catequizáveis (Bush, os Estados Unidos e quem os apoiar) e os-que-ainda-não-viram-a-luz-como-nós, mas são catequizáveis, como a canalha cleptocrata dirigente da esmagadora maioria dos países do Terceiro Mundo, bajuladora, em proveito próprio, do que de pior há nos povos que comandam e, desta maneira, constituindo um obstáculo muito maior à sua "felicidade" do que qualquer governante "imperialista". É essa mesma "esquerda" (sobretudo a do Bairro Alto e quem dela se traveste no actual poder político) quem está a transformar as nossas escolas em instrumentos segregacionistas, através da "discriminação positiva". Com todas as consequências catastróficas que isso já vem a revelar...
(Não sei se isto está muito bem escrito nem se traduzi correctamente o que penso, mas cá vai. Se tiveres dúvidas, vê este post do Range-o-Dente e o meu comentário: http://range-o-dente.blogspot.com/2008/02/escola-racista.html)

Abobrinha disse...

Joaquim

Esse post do range-o-dente parece-me acertadíssimo, mas não sei se é correcto pô-lo tão racista. Feliz ou infelizmente, dado que assim não se distingue pela cor os meninos que passam porque o Ministério decreta. Mas também é racista.

Um dia destes li que aparentemente hoje em dia ser de esquerda é ser anti-americano. Com todos e mais defeitos que têm os americanos, nós temos a LIBERDADE de os descobrir e apontar e rir deles. É mais do que o que se pode dizer de regimes que aceitam sharias e outras que tais. Sendo assim, a América é ainda um bastião de liberdade. Imperfeito (muito imperfeito) mas é. Não entendo então o que é ser de esquerda. O que é pior é que mais ninguém parece perceber.

Por extensão também não compreendo o que é ser de direita. Suponho que não seja o que disse uma amiga que dizia que ser de direita é não permitir a igualdade de oportunidades, perpetuando assim a riqueza dos grandes grupos económicos e fazendo ricos os filhos dos ricos e pobres os filhos dos pobres. Estive quase para lhe sugerir comprar um cérebro, mas eu também não conhecia definição melhor. Para falar verdade, não conhecia definição nenhuma.

E depois surpreendem-se de eu não saber em quem vote nem em que quadrante político estou! Pois se eu não compreendo o que está em causa!

Joaquim Simões disse...

Olha, eu penso que hoje já ninguém sabe muito bem o que é ser de esquerda ou de direita...! Penso é que há muita palermice, muitas vaidades e muito oportunismo ligados a esses bem como aos restantes conceitos políticos herdados da Revolução Francesa. Penso que, por exemplo, o Marx (dê-se-lhe ou não razão) reflectiria muito sobre o assunto, sobretudo em presença dos que hoje se dizem "de esquerda" e que são, em relação a ele, de um primarismo inversamente proporcional. É a esse tipo de gente que me referi quando falo de "esquerda". E quanto à "direita" poder-se-ia falar do mesmo modo.
No que se refere ao Range-o-Dente, não há ali ponta de racismo. Mas, se por acaso leste já outros textos dele, hás-de reparar que o homem é mesmo assim, truculento na forma como exprime as opiniões, o que às vezes gera mal-entendidos.

Abobrinha disse...

Joaquim

Não achei o range-o-dente racista (pode até ser, mas não se vê pelo que escreve neste post). O que quis dizer foi que é o minimalismo do que se aprende não é só para (perdoa-me a expressão) "escolas de pretos". Está perfeitamente democratizada para todas as cores, feitios e extratos sociais e começa a invadir as Faculdades (ou já lá estava).

O que interessa é fazer número. O que torna verdade o que alguns vizinhos meus (todos brancos, só porque sim) diziam quando tiravam os filhos da escola: é para não ganhar maus vícios. E ganha-se maus vícios na escola: aprende-se que se MERECE passar de ano e entrar na Faculdade. Porque sim, não porque a pessoa se esforçou.

Se a questão fosse racista, era racista e estava confinada aos pretos. Assim era "fácil": ou se lavava os tipos com lixívia ou se dava uma ensaboadela de outro tipo. Mas o não precisar de saber é coisa de muito branco que por aí anda. Quem é que disse que éramos uma sociedade racista? Não: há desigualdade de tratamento para pretos e brancos.

Joaquim Simões disse...

Ok! Não tinha percebido o que querias dizer quanto ao Range-o-Dente e quanto ao resto estou de acordo.