domingo, 20 de janeiro de 2008

Fui ao Museu de Serralves e não vi o auto-rádio do mini do Jorge Fiel

Pois hoje fui passear a Serralves. Ficam a saber se entrarem ao domingo até às 14:00 não pagam. Ora eu já não pagava por natureza porque sou amiga de Serralves, mas uma borla sabe bem a qualquer um (mesmo que seja em vão). Mas esta entrada valerá um par de posts mais. Com um bocadinho de sorte, alguns não darão vontade de dormir.

Vi duas exposições (do Robert Raushenberg e da Lúcia Nogueira) em 13:42:02 minutos (1). E isto porque o Museu é grande de carago, porque um olhar rápido chegava para cada peça (ou para a exposição toda!). Ir sozinha encurtou grandemente a visita porque eu tenho sempre receio que o facto de me rir desbragadamente, fazer caretas e dizer mal da arte sejam passaportes para uma estadia 5 estrelas no Magalhães Lemos (para quem mora a sul do Mondego e seja freguês desta choça, é o hospital psiquiátrico do Porto). Não é por mais nada: é porque há mais malucos que eu, por isso estou a manter aquilo o mais desimpedido possível.

Contrariamente ao que profetizou o preclaro Com Tranquilidade (2) (passageiro frequente deste estabelecimento, embora há muito que não comente aqui), o auto-rádio do Mini do Jorge Fiel, que tem a minha idade (o Mini, não o Jorge Fiel) não estava lá! Não significa que não vá lá parar: deve estar a esta hora a ser colado com cartões, panos de seda enormes, cordas, imerso em banheiras e com almofadas a fazerem coisas sinistras a portas.

Parte da causa para a visita ser tão curta também se deve ao irritante ruído de saltos de botas femininas a martelar no soalho do Museu. Que os saltos e as botas fossem ambos meus não é um pormenor sem importância: pelo contrário, ainda irritava mais (se isso é possível), porque eu posso dissociar-me dos meus pensamentos ou do que me rodeia, mas dos meus pés só com um castigo à Taliban. E algo me diz que uma prótese para os pés era capaz de fazer mais barulho que os saltos dos sapatos. E ser qualquer coisinha mais incómoda.

O objectivo da visita a Serralves também não era a exposição: cartão usado, vidro partido e lixo tenho eu em casa de sobra. E não lhe chamo arte mas azelhice, falta de tempo e pachorra para arrumar, um potencial uso ou matéria-prima para reciclagem. O verdadeiro objectivo da visita, programada já na sexta-feira à noite era rumar a um dos meus sítios preferidos no mundo para recuperar de uma semana tão escura e de uma melancolia que ameaçava instalar-se. Não sabia eu que o S. Pedro ia brindar-me com um fim de semana com um tempo tão glorioso: céu azul e montes de luz! Um dia digno de Lisboa! A melancolia permaneceu, mas eu sei exactamente a que se deve e não é para aqui chamado.

Fui munida da revista do Expresso desta semana . Na Actual tem um artigo sobre a Simone de Beauvoir, mas não menciona o rabo da Simone de Beauvoir do mesmo modo que este estabelecimento. O que só demonstra que o Expresso tem padrões de qualidade e este estaminé não! Ou seja, nada que já não soubéssemos.

Curiosamente, numa das "curtas" dizia que a Sharon Stone queria experimentar mulheres porque os homens agem como mulheres e as mulheres como homens, pelo que ela queria experimentar masculinidade a sério. Fiquei na dúvida: mando o meu currículo ou não? Ora opinem (e javardem!)!

Um outro artigo mais interessante dava conta de cafés de Lisboa tipo tertúlia com muito bom aspecto. Deu-me vontade de rumar para esses lados. Para quem já aí está, fica a lista:

- Noobai Café (Miradouro de Santa Catarina), aberto das 12 às 24 h

- Associação Loucos e Sonhadores (Rua Luísa Todi, ao Bairro Alto), aberto das 22 às 04 h

- Café Royale (Largo Rafael Bordalo Pinheiro, ao Chiado), aberto das 10 às 24 h

- Les Mauvais Garçons (Travessa dos Fiéis de Deus, ao Bairro Alto), aberto das 19 às 02 h

- Pois, Café (Rua São João da Praça, à Sé), aberto das 11 às 20 h

Se puderem aproveitem e guardem-me um lugarzinho. Eu quando puder dou aí uma volta. Mas aqui também se está bem e tem muito que ver (com mais ou menos luz).

Numa ironia suprema, outro artigo na revista era sobre a Joana Vasconcelos. Eu, cuja dúvida maior em relação a arte contemporãnea reside na quantidade de decibeis a emitir ao rir-me da maioria das peças, sou maluca pela maluca da Joana Vasconcelos. Ao ponto de conseguir identificar peças dela antes de ler de quem são. Acho-a o máximo e não sei dizer porquê. É possivel que simplesmente sentir que gosto sem ter que estar a questionar e problematizar é o melhor elogio que posso fazer à obra da moça.

Deixo-vos esta parte da minha visita a Serralves com uma das vistas mais extraordinárias. Não pela beleza em si, mas pela ideia de que há um pulmão e um espaço de ruralidade no centro da cidade: neste ponto vê-se o campo e ouve-se o chilrear dos passarinhos e ao mesmo tempo vê-se a cidade e ouve-se vagamente o ruído dos carros que a caracterizam. Como este sítio é quase no fundo do parque, já se passou por muito jardim e muita mata, o que dá a ilusão de que poderíamos continuar para sempre em contacto com a natureza. Mas não é verdade: a cidade está mesmo ali ao pé, mais perto do que na realidade parecia, o que também é uma metáfora extraordinária para muita coisa na vida (ou não, mas apeteu-me ser filosófica).

Como disse, esta visita ainda vai inspirar pelo menos mais dois posts. Um será lamechas e o outro javardo. Mas isso será quando me der na telha! Não antes e não depois.
Fiquem bem.



(1) O tempo poderá ser uma invenção minha, mas não está muito longe da realidade

(2) Comentário de 20 de Janeiro de 2008 às 02:02

7 comentários:

Com tranquilidade disse...

Abobrinha,

Já disse por outras palavras o que agora repito:

Já comprei alguns livro, já li alguns autores...

Seja a pagar seja à borla (como aqui) já não me lembro de ler com tanto prazer (tirando os clássicos catalogados em "alguns que já li", e mesmo assim...) uma pessoa que escrevesse tão bem como você.

Quando por vezes lhe digo que tenho "inveja", digo-o sinceramente; se eu tivesse essa facilidade...

Os meus sinceros cumprimentos e parabéns. Valeu o seu esforço para chegar a este nível. Digo-o convicto de que isso não é só fruto da sua natural inspiração mas, sobretudo, de muito trabalho.

Allanah disse...

Oh Abobra da horta! Mas porque é que os teus posts tem sempre de ser taaaaaaaao grandes???

Abobrinha disse...

Allanah

É para se ver melhooooooooooooooooooooor!

És um bocadinho injusta: também tenho rapidinhas. Mas não muitas vezes. Além de que estou um bocadinho em baixo (o que é parvo, dado o bom tempo, mas eu sei a que se deve), por isso precisava mesmo era de uma massagenzinha no ego.

Já agora, o teu vídeo estava giro (e a música bestial, Allanah style), mas não pensei que fizesse parte do teu conteúdo funcional fazer vídeos. Afinal, isso é mais a atribuição de decora... digo, desigers e pessoal das artes. Dito isto, és um perigo (no bom sentido) com a máquina fotográfica! Olha que (não sei se já te disse) tenho um amigo que com essa brincadeira agora ganha a vida a fotógrafo, com uma formação académica que não está sequer relacionada (e que mandou completamente para as malvas).

Allanah disse...

Boa, isso da-me uma ceta vontade de enveredar pela fotografia. O video, era obrigatorio na apresentação do trabalho, e como os meus colegas de grupo nao fizeram a ponta de um corno eu tive de fazer tudo sozinha, incluindo o video.. olha, a versatilidade é importante hoje em dia, começo eu a ver!

Abobrinha disse...

Com Tranquilidade

Estou a ver que era só preciso chamar! Além de tudo, nem precisei de dizer que precisava de um elogio: o preclaro adivinhou logo!

Ainda bem que gosta do que escrevo: a mim regra geral dá-me prazer escrever e ter retorno de quem me lê.

Não sei se fiz um esforço consciente para desenvolver um estilo de escrita. Mas tentei sempre transmitir claramente o que penso. Hoje dou por mim a pensar: tenho que fazer um post acerca disto. Pelo prazer de arrumar ideias e de partilhar o que penso com quem me lê.

De novo, obrigada pela sua visita e pelas suas palavras simpáticas.

Abobrinha disse...

"os meus colegas de grupo nao fizeram a ponta de um corno eu tive de fazer tudo sozinha"

Adoro trabalhos de grupo! Tive grandes dissabores por causa de um trabalho (supostamente) de grupo. Veio ao de cima toda a falsidade e comodismo de supostas amigas minhas. Mas não foi como nas histórias de fadas e cinderelas: quem se lixou pela medida grande fui eu! E eu era das únicas inocentes na história.

Mas eu hoje, de facto, estou muito sensível!

Filha, podes não chegar a fazer fotografia como ocupação a tempo inteiro (como podes chegar a conseguir fazê-lo), mas pelo menos não te afastes.

O meu amigo disse-me a dada altura que onde ganhava mais dinheiro era em fotografia de moda. E há um tempo vi-o... numa das páginas interiores da Cosmopolitan!

ZumZumMataMoscas disse...

Abobrinha,

Eu também gosto de Serralves.
Num dia glorioso, um passeio pelos Jardins de Serralves, que não pelas exposições, faz-nos pensar que vale a pena viver e que o mundo pode ser bonito.

Enfim, espero que recupere rápido desse momento mais negro e que, perdoe o egoismo, volte rápidamente a partilhar os seus deliciosos comentários.

O CT têm razão. Já pensou em escrever um livro?

http://zumzummatamoscas.blogspot.com/