quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Desafio à bolina

Que eu saiba, esta história já tem dois fins. E eu não sei sequer se estou contente com o meu (que tinha que ser palavroso, of course!).

Para quem não está a par, é assim:

1. Este post é do Manuel Rocha.

2. O António não gostou do fim e foi desafiado a alterá-lo. E assim o fez, aqui.

3. Como tenho grande dificuldade em fechar a matraca, mandei o meu bitaite e encomendaram-me um final diferente. E aqui vai ele!

A azul está o texto original. A preto a continuação que lhe dei. E estendo o desafio a quem o quiser aceitar: alterar o final.

Na desdenhessssss da igrejinhaaaaaa...Q’ está sozinhaaaaaaaaAlém na serraaaaaaaaa….
Pôs aquela engreja éééé…a nossa fééé…na nossa terraaaa !!
As ra-pa-rigas prendadaaas…serããã bêjadaaas…naquela engrejaaaa….
há - um – di-tadeee – que - diiiz…serás feliiiiz…pa - toda a vidaa!!


A noite corria cerrada quando a cantilena me rompeu o sono. Percebi-a vinda de cima, do lado da Vila. Mais perto, o coro de vozes apressadas tornou-se inteligível. Mas poucos minutos depois, extinguiu-se para lá da curva da recta de Vale Deus.

Olhei para o mostrador luminoso do enorme despertador cujo tiquetaque me tinha martelado o sono naquela primeira noite algarvia. Marcava 4.45 de uma madrugada de Janeiro e geada.
Ainda meio estremunhado, percebi passos cuidadosos que deslizavam pela casa e uma luz tremeluzente, provavelmente do fogão a lenha que se acendera na cozinha. Afinal o dia ali começava ainda de noite. Se era essa a regra da casa, haveria que viver com ela e saltei para fora das mantas com a curiosidade sedenta pelas coisas misteriosas que se preparariam na escuridão.
Há quarenta anos, enquanto o meu avô araçoava o gado, a minha avó preparava-lhe à luz do petróleo as sopas de leite do mata-bicho e o cesto com a marmita dos carapaus alimados, a meia garrafinha de tinto e o restante avio para a jorna de poda que iria romper com o sol nas areias da Caramujeira, a uma hora de trote, Norte e solavancos da galera.

Ao romper do sol, teriam também as operárias conserveiras das fábricas de Ferragudo de pegar ao trabalho. Eram delas as vozes que cantavam sincopadas pelos passos apressados que saíam a pé de Lagoa a meio da madrugada, chovesse ou não, para percorrer os oito quilómetros da distância. Largavam ao pôr-do-sol, chegavam a casa noite cerrada e na madrugada seguinte voltavam ao mesmo, a menos que não houvesse peixe, e isso ninguém queria, pois nesse caso não havia trabalho e não havendo trabalho não havia dinheiro e sem dinheiro havia muitos dias em que o jantar era a única refeição do dia, com meia sardinha frita e um naco de pão a cada um e um prato de sopa de papas de milho para todos.

Nesse ano o tempo até andava a correr de feição, não faltara trabalho e embora a paga fosse a miséria do costume, não havia contas no prego e a consoada não se passara na míngua habitual.

Volvidos quarenta anos ecoam os cânticos das operárias conserveiras, mas desta vez só na memória de quem não esquece esses tempos. Não esquece as tormentas mas não as romanceia com uma nobreza maior que a de aguentar uma pobreza que era de tudo. Sobreviver, no fundo, e passar adiante mais uma geração que não morreu de fome ou de outra qualquer necessidade.

Os seus descendentes já não descem a estrada a pé e em grupo, cantando para espantar os fantasmas e coisas ruins que se adivinhavam debaixo de cada sombra. A geração seguinte desce a estrada no carro que deve ao banco e que rendimentos variáveis mantêm a rolar. A fome é outra: assegurada a sobrevivência e a abundância de alimento, não sabem o que lhes falta. E no entanto sabem que lhes falta, porque lhes ronca uma barriga que não está no mesmo sítio que há 40 anos, quando um senhor que não se dava bem com cadeiras ameaçava perpetuar as várias fomes por mais umas gerações.

Olham para o fundo da estrada iluminada por faróis e iluminação pública e o raiar do sol não se torna visível. O sol deixou mesmo de ter ser a única fonte de luz e calor. Deixou mesmo de ser importante e de marcar o ritmo dos dias. O ritmo é agora o do homem. Que não tem direção.

À procura de matar a fome que não se sabe de onde vem e como se sacia andamos todos os dias. O culminar de gerações e gerações, nem sempre nos paramos para pensar na nossa condição de sobreviventes. Não pensamos na fome física dos antepassados, que lhes dava tempo para pensar em pouco mais que viver e rezar por dias melhores.

Hoje amaldiçoamos as nossas bênçãos e choramos por maldições pretéritas. Quando a vida era mais simples e pensar no sentido da vida era um luxo de ricos. Quando não teríamos que cumprir o nobre destino que nos encomendaram gerações de sobreviventes, mas simplesmente sobreviver e sonhar um sonho melhor para os que se nos seguiriam.



NOTA: Outras respostas ao mesmo desafio

Feitixeira

Ana Luar

12 comentários:

NETMITO disse...

ESCUTA O SOM MAIS PURO DA TUA VOZ...

Boas festas:)

antonio disse...

Miúda, eu estava a tua espera. Descortinei-te por entre a linhas meio fúteis, meio brincalhonas, mas de um indecifrável sabedoria, que por aqui insistes em badalhocar. A Indy foi a primeira a reparar em ti.

Eu sabia que daí podia sair coisa séria e assim de se ler, como quem saboreia um cacau quente pela manhã.

Este é um caminho perigoso, onde voltar atrás já não é mais possível. Mas o que são os desafios para uma Abobrinha destemida?

antonio disse...

Também temos a resposta da Feitixeira em http://magicandoideias.blogspot.com/2007/12/desafio-em-cadeia.html

Manuel Rocha disse...

Touché !

Neste final está uma acutilante perspectiva de critica social à deriva que vivemos nestes últimos quarenta anos.

Tenho duas notas apenas.

A primeira é sobre a questão do sentido. Acho que havia um sentido e que não era perrogativa dos ricos. Ou então não se teriam plantado os sobreiros que só hoje começaram a dar cortiça nem despedregado os campos que nunca chegaram a ser cultivados porque entretanto se emigrou.

A segunda é sobre o "Botas" das cadeiras. Repara que desde que há memória precisamos de um bode expiatório de serviço. Antes do Botas e da Republica, a culpa era dos Reis e até houve quem tivesse limpo o sebo a um e por conta disso tenha dado o nome a muitas ruas dos nossos burgos. Depois do Botas, houve outros culpados de serviço. Entretanto fez-se outra revolução, virou-se tudo de pernas para o ar e mesmo assim continua tudo mal. Não começaria a ser tempo de procurarmos outra causa para as coisas ?

Abobrinha disse...

António

Não sei se eu mesma gostei do meu final. Acho que engonhei um bocado: queria dizer muita coisa e acabei por dizer quase tudo e atropelado. Eu sei que gozo com a minha falta de capacidade de síntese, mas é bem real e às vezes estorva.

Não sei se a falta de capacidade de síntese é falta de coisas para dizer, excesso delas, atrapalhação nos pensamentos... não sei mesmo. Uma boa coisa para pensar durante o meu mergulho na natureza. Isso e em como não congelar porque não comprei um casaco para a neve porque o lourito morenaço que mo queria vender ia demorar 1 hora a perceber o preço e eu estava a envelhecer aos poucos. E não era assim tão giro que eu ficasse entretida a olhar para ele enquanto esperava (louros atados não são o meu ideal).

O caminho não é perigoso. E há vários caminhos, com ligações uns com os outros. Claro que as badalhoquices puras e duras são mais concensuais. Vamos ver no que isto dá.

Abobrinha disse...

Manuel

Eu também não sei qual era o sentido, mas a sobrevivência era um dos mais marcantes. OS sobreiros eram parte da sobrevivência das gerações vindouras.

Eu mesma hesitei em invocar o nome de um dos maiores parolos portugueses (se bem que escrevi a maior parte do texto em escape livre), mas acabei por o deixar. Porque era o demónio de há 40 anos e ameaçava eternizar-se (se bem que nessa altura a lógica mandaria que ele caísse de algum modo do poder). E precisamente para tentar descortinar quem é/são os responsáveis actuais.

Na volta todos temos um pequeno ditador dentro de nós, que nos condena ou ao exílio forçado ou à mediocridade. Não sei. Seja como for, temos que assumi-lo e ou abraçá-lo como opção de vida ou mandá-lo pela janela fora!

Mas ele relaciona-se de modo não discutível com o sentido desta e de outras gerações, porque prolongou (e isto é um facto) o nosso viver a um nível de sobrevivência pura e simples. Se tivéssemos acompanhado o resto do mundo a que parecemos naturalmente pertencer, naturalmente estaríamos à procura dele há mais tempo.

Mas ainda estamos a tempo (mesmo porque não podemos viver nem alterar o passado).

Abobrinha disse...

António

Vi brevemente a resposta da Feitixeira e gostei. Vou acrescentá-la e a todos os finais alternativos neste post, por isso se me falhar algum avisa.

Uma coisa é certa: este exercício de começar uma coisa e os outroa acabarem tem o seu mérito! Não é o ping-pong Ludwig Krippahl/Desidério Murcho, mas cada qual é para o que nasce (ou para o que está preparado na altura).

Manuel Rocha disse...

Exacto..."os sobreiros eram parte da sobrevivência das gerações vindouras".

Poderemos então supôr que o sentido de sobrevivência se projectava no futuro? Poderemos dizer que haveria uma dinâmica de construcção com um sentido de "essencial" ? Será que cada um se via como elo de uma cadeia que não começara nem acabava no espaço da sua própria existência ?

Quanto ao Botas o caso complica-se. Precisamos de dar mais uns anos à história para uma leitura desapaixonada dessa época. Por agora ele é de facto um óptimo bode expiatório das culpas próprias e alheias, e dá imenso jeito.

Estava a ler-te e a lembrar-me de um filme que dá pelo nome de Trafic. Há um episódio de sucessão de poder em que o sucedido conta uma história deliciosa ao sucessor. Básicamente deixa-lhe duas cartas fechadas e sugere-lhe que as abra por ordem quando se encontrar numa enrascada. Quando o sucessor se sente na primeira enrascada abre a primeira carta e lê: " culpe-me a mim". Ele assim fez. Passado um tempo e em segunda enrascada, abre a outra carta e lê: " escreva duas cartas". Mas por cá insiste-se em culpar o Botas.

antonio disse...

Para defensor da actual ministra, encontro aqui uma certa coerência... ;)

antonio disse...

A Ana Luar deu também o seu contributo:

http://desafiosdeamigos.blogspot.com/2007/12/um-povo-do-caraas.html

Feitixeira disse...

Abobrinha,
Gostei da forma mordaz e reflexiva com que agarraste o texto.
A expressão "E no entanto sabem que lhes falta, porque lhes ronca uma barriga que não está no mesmo sítio que há 40 anos" acertou-me no bucho com precisão milimétrica;)

Beijinhos abobrados***

(vou adicionar um link para o teu blog)

Abobrinha disse...

Feitixeira

Ainda bem que gostaste. Eu não estou inteiramente satisfeita, mas o texto tem as suas coisas boas. O Natal deu cabo de mim, mas mesmo assim acho que já estive em baixo mas mais inspirada.

No geral acho que já estive mais inspirada (deu-me conta disso hoje ao "rebobinar" à procura de um texto)! Mas isto cada qual é para o que está, e não estou em grande forma. Vou ver se recupero a pedalada.