domingo, 23 de dezembro de 2007

Joaquim, o crítico de arte com um grão na asa

O nosso amigo Joaquim, muito sabedor das cousas do mundo e das gajas em geral, brindou este estaminé com uma prosa que merece um post. Mas como eu sou refilona (se um grande pensador português assim o diz, quem sou eu para discordar?), tenho que meter o bedelho! E assim o farei: a azul o comentário do Joaquim, a preto os meus bitaites.

"Abobrinha:

Para atenuar a ressaca de uma semana de stress e assim melhor poder entrar no espírito das Aventuras da Abóbora Minorca no País da Badalhoqueira, nada como o efeito de um almoço tardio de sábado regado por um bom tinto de Palmela, rematado por um quadradão de chocolate preto do Equador, a acompanhar um café de pacífica estirpe arábica."

Bom gosto (não bebo álcool, mas parece-me bem).

"Na sequência do que, entrando na boémia que este preliminar requer, aqui te deixo o comentário que te salvará, a ti e ao resto do mundo."

Acho que é um bocado tarde: já estou perdida!

"A partir de hoje já poderás escrever sobre arte e fufas com muito mais segurança e propriedade."

Não era preciso: eu escrevo sem propriedade mesmo. A malta prefere a badalhoquice! Mas vamos a ver o que há para dizer em segurança e propriedade!

"Começo, como a manutenção das aparências recomenda, pelas artes, embora já se saiba onde a coisa, como sempre, irá dar. Desde sempre que a tradição ocidental, via tradição ariana, da visão como o sentido nobre me cheirou mal."

A minha não é assim muito nobre: sou um bocado pistoga. À meia-luz ainda sou mais. E não percebo um boi de arte, no que sou igual a muita gente que é das artes. Mas disfarço bem!

"Nenhuma visão idílica de um Paraíso, com ou sem odaliscas, supõe que jamais nele se possa passear ou frui-lo no meio de odores a esgoto ou a lixeira. Daí que a máxima surrealista de que “a beleza é para comer” me tenha feito imediatamente sentido quando a li pela primeira vez."

Aha! Comer! Agora já estamos a falar do mesmo! Acho eu...

"O problema é que gente como o Andy Warhol promoveu a comida sopa enlatada e menus do McDonald’s, que isto, para sacar os carcanhóis necessários a ter um apartamento prateado no centro de NY, vale tudo. E como, além disso, nada nele se projectava para as mulheres, até a pobre da Marilyn misturou naquela caldeirada (em lata). Se calhar foi esse o motivo mais fundo que levou a tal célebre lésbica profissional do jet-set a entrar-lhe pela casa dentro e a meter-lhe umas quantas balas no canastro…"

Concordo: as fufas têm bom gosto e a fulana sentiu-se no direito de dizer isso mesmo a tiro! E olha que depois de ver o filme "Factory girl", eu mesma senti vontade de lhe ir às trombas! OK, estar morto torna a coisa operacionalmente mais complicada! Mas já vi desculpas piores! E um apartamente prateado é motivo sólido para um tiro!

"A partir daí, promovida a fast-food a comida respeitável, instalou-se uma cadeia que vende de tudo como tal, aproveitando mesmo o lixo sem qualquer tratamento, assim, ao natural, para alimentar os espíritos ávidos da nova droga: a cultura, uma espécie de mistura entre o Prozac e o Viagra, que lhes promove a auto-estima e proporciona momentos de profundo convívio, poupando-lhes a desorientação e o pânico que sentem perante o vazio que são."

Respeitinho pelo Prozac, que ninguém está livre de precisar de um bocadinho! E o Viagra é muito útil na recuperação de jet lag de ratos. Ora ratos... lixo... arte! Aha! Isto está tudo ligado!

"Experimental tornou-se sinónimo, em 95% dos casos, de burla qualificada feita pelo mais puro matarruanismo genuinamente urbano ou pelo provincianismo desesperado pela falta de estatuto cosmopolita, com a agravante de já não terem consciência nem dela nem de que o são, tal o abuso que fizeram do produto. Espíritos vestidos de ecológica lã ou de duro cabedal sintético, que colocam indispensável e cientificamente a tradição em pratinho de barro e a servem com colheres de pau, convictos de isto tenha sido, para o povinho, alienado da cultura (deles), pau para toda a obra. E que associam Florbela Espanca ao arcaísmo da indústria corticeira, a qual só adquire significado enquanto produto biológico se associada ao formalismo mutante do metro-sexualismo. Numa palavra e parafraseando o Nietzsche, gente que se quer profunda quando ainda nem plana consegue ser."

Isto é muita sabedura!

"Ora isto de beleza comestível leva, inevitavelmente, às gajas, que aí ninguém, a começar pelo Freud, tem pejo em usar o termo comer."

À mão! Já ando a ensinar o meu sobrinho que mulher e frango se come à mão! Mas acho que ele já sabe (apesar de treinar várias maneiras de sarnar a paciência à irmã, com um pormenor sadico-científico!).

"Daí às fufas é um pequenino passo, bem como ao mistério dos transportes espirituais experimentados pela “esmagadora maioria” da homenzarrada ao ver o mulherio noutros arroubos que não aqueles que a sagrada religião e a sagrada ciência lhe determinaram. O que é visto como um sector obscuro da natureza humana que a dita ciência virá um dia a iluminar; um mistério da queda da vontade dos crentes e dos divinos desígnios para o senhor prior; e um forte recurso eleitoral para louçãos exemplares do já referido urban matarruanism ou para tipos armados de Machados para acabarem de vez com o pensamento - porque eles não o têm e não querem discriminar ninguém -, repito, o que parece um mistério não é, para mim, porém, mistério nenhum."

Carago, eu usei um dia destes a expressão "urban chic", mas "urbam matarruanism" é mais potente! E tudo o que seja bater no Louçã para mim é bom (ele mesmo um padreco dos mais bafientos).

"Assim, numa rapidinha:

Como diziam os empoados senhores do século XVIII, quis a sábia natureza que o ser humano se distinguisse dos restantes seres vivos pela posse da consciência de si e correspondente linguagem;

Quis também a sábia natureza, ao contrário de quase todas as restantes espécies, que os atributos de maior sedução e beleza se concentrassem no representante feminino da nossa;

Quis, em consequência, a sábia natureza que, tomando consciência de si e, portanto, da sua beleza, as mulheres pudessem avaliar os seus próprios atributos;

Para os poder avaliar, é necessário sentir a sua força - que a sedução não é meramente quantitativa, mas qualitativa e a qualidade não se mede, sente-se, prova-se;

Não existe, portanto, mulher alguma que não saiba quando ela ou a “outra” estão desejáveis, “comestíveis” e, por isso, as mulheres sempre se detestaram ou aconselharam umas às outras nesse sentido;

Daí até ao resto, fez-se a evolução das espécies num salto de passarinha, até porque não foram só os homens que apreciaram devidamente as glândulas mamárias das suas mãezinhas, as mulheres também;

Portanto, quando um macho vê aquele molhinho de concentrado de sedução, assim tudo em duplicado e a ferver, bem, como é que querem que ele resista?! Aquilo é puro êxtase de beleza e um gajo, se é artista, só pode amandar-se e chamar-lhe caldeirada (mas o Warhol não percebia nada desta)."

Ah, pois! Mas olha que o Tim Crow disse que as fêmeas é que escolhiam o tal macho humano moderno com elevadas virtudes comunicacionais. Em contacto com o seu lado feminino, portanto (seria gay?). Mas acho que provei que o Tim Crow, entre outras coisas, não sai muito. Gostava de saber de que é que o Andy Warhol percebia. Além de que as mulheres são como as sardinhas: as pequeninas são as melhores. E o Andy não devia comer sardinhadas regularmente (nem mais nada, para falar verdade).

"Do ponto de vista científico e filosófico, pouco mais haverá a dizer. Do ponto de vista religioso, aconselho os crentes a falarem com Deus, porque só Ele os poderá esclarecer sobre se interpretaram correctamente a doutrina."

Acho que a parte das fufas é omissa na Bíblia e no Corão. Há quem diga que a Bíblia fala de homens homem-sexuais, mas eu também acho que há gente com pouco que fazer e que vê homem-sexuais em todo o lado.

"Eu limito-me aos factos.Já estou a ouvir uns zunzuns acerca dos amores masculinos. Pois, gajo que é gajo também se apaixona por gajos. Apaixona-se, mas gajo que é gajo apaixona-se pelo car…ácter do outro, pelo grau de consciência do outro, pelo seu grau de dignidade como ser humano, porque do resto não dotou a sábia natureza o outro e aquilo não há ali nada que o entusiasme, a começar pelo cheiro. Do que daí se segue, já o Mário de Sá-Carneiro falou n’ A Confissão de Lúcio, é só lerem, que o rapaz merece, e escuso eu de estar para aqui a perder tempo."

Bem... é assim... eu gosto de gajos! E acho que alguns gajos têm o direito de gostar de gajos: os feios, os pouco interessantes e os que cheiram mal. Fora isso, devia ser proibido! Além disso, acho que acabaste de chamar às fufas superficiais... who cares?

"Então mas os outros, os que se entusiasmam mesmo com esse pouco? Amigos, o ser, como lembrava o Aristóteles, diz-se de muitas maneiras e não apenas de uma, e nem ninguém é ou tem que ser igual a ninguém, nem temos que eliminar as classificações por causa disso. As classificações são instrumentos de orientação, de correlatividade, tal como o termo maioria é correlativo do de minoria. Uma amiba, uma ténia ou um caracol são, do ponto de vista do modo como são sexuados, diferentes do ser humano e de outros seres. São o ser que são e desejáveis por quem os considerar atraentes para o seu próprio modo de ser. Não podemos é entrar na paranóia monstruosa da normalização e dizermos que eles são assim pela atribuição de papéis porque, no fundo, somos todos iguais e chamar a ASAE para higienizar tudo."

Mmmm... OK, os amibas também podem fazer parte da lista. O tamanho não é tudo, mas não exageremos. Ténias e caracóis também passo. ASAE tem dias (mas a maioria são dias não).

"Eu, como gosto mais da diversidade da superfície do que da amálgama informe das profundezas, digo que eles são assim porque são, e pronto! É apenas o ser dito daquela maneira! Não lhes atribuo é a classificação de gajos, enquanto mais marcadamente machos, porque o não são!

O mesmo em relação àquelas desgraçadas que, complexadamente e por efeito da tirania do pensamento politicamente correcto, acabam por se travestir de camionistas ressabiadas, quando, em circunstâncias normais, seriam seres sem aqueles trejeitos ridículos, apenas com um lado feminino menos predominante, comendo mais da beleza que lhes seria devida do que acabam deste modo por comer."

Eu não quero saber se as gajas são assim ou não: quero é que sejam muitas, que é para diminuir a concorrência! Por outro lado, se toda forem tipo camionistas ressabiadas, diminui a possibilidade de atrairem outras mulheres, o que pode dar mais concorrência para este lado. Fufa que é fufa deve, portanto, ser o mais atraente possível.

"Pronto, já acabei!

(O whisky era a única coisa de má qualidade e fez efeito por pouco tempo)"

Amen! Agora tenho que fazer pesquisa para as fufas low cost e as fast food! Conceitos bestiais!

Já agora, isto é uma dream girl ou má escolha de lingerie? De qualquer modo, justifica-se porque está dentro do tema Natal.


NOTA: A parte do grão da asa foi liberdade artítisca, legitimado pelas minhas más intenções e pela observação do wisky e do tinto de Palmela.

2 comentários:

antonio disse...

"mulher e frango se come à mão"

Profundo Abobrinha, mesmo muito profundo. Gostei do que fizeste com este texto: ironia, bom gosto e fina sabedoria. A marca Abobrinha.

Olhaminha ramelosa,agora em pleno espírito da quadra Natalícia, faz-me uma visita e vê o que vai acontecendo lá pelos meus lados.

Bom Natal.

Joaquim Simões disse...

Esse tempero de Abóbora no grão do meu golpe de asa está no ponto! Só uma emendazita: não quis dizer (porque não tem nada a ver com o que penso sobre o assunto e não pretendo ser castigado pelo menino Jesus nem pelo Pai Natal) que fufice seja sinónimo de superficialidade! Tomar consciência da sua própria beleza requer exactamente o oposto. Só que se trata de planos diferentes.
No Natal vou beber qualquer coisa da Estremadura, pode ser que ajude a explicar melhor esse ponto.
Entretanto, continua a insistir com o teu sobrinho em que o frango se come à mão!