Não sei o que diga desta notícia...
"Um bebé israelita, que tinha sido declarado morto pelos médicos, voltou à vida depois de passar cinco horas na câmara frigorífica do hospital. Com apenas 610 gramas, a criança é considerada pelos médicos "um milagre".
Passavam 23 semanas de gravidez quando Faiza Majdoub, 26 anos, chegou ao hospital israelita Western Galilee, em Nahariya, queixando-se de dores fortes e hemorragias. Aos constatarem que o bebé não tinha pulsação, os médicos viram-se forçados a realizar um aborto de emergência. O bebé, uma menina do tamanho da palma de uma mão, foi levado para a morgue, onde passou cerca de cinco horas na unidade de refrigeração.
Antes de se proceder ao enterro, Faiza Majdoub pediu para ver o corpo da filha e foi nessa altura que a sentiu a mexer. "Primeiro não queríamos acreditar mas depois sentimo-la a apertar-nos a mão e a abrir a boca", contam os pais.
A criança foi levada para a unidade de cuidados intensivos neo-natais do hospital, onde todos ainda estão incrédulos com a situação: "Como não temos uma justificação médica para dar, vemos isto como um milagre", afirmou o médico que está a acompanhar o caso, Moshe Daniel. Em declarações ao Canal 10, o conceituado professor de medicina Motti Ravid deixou a sua teoria: a baixa temperatura dentro do frigorífico diminuiu o metabolismo da criança, o que possivelmente ajudou a menina a sobreviver.
O hospital nega que tenha havido negligência, reafirmando que o bebé foi declarado morto depois de exames cuidadosos. Ainda não se sabe se a criança conseguirá sobreviver, mas se tal acontecer há fortes possibilidades de esta vir a sofrer complicações motoras e mentais."
O pior é que nem sei se quero que o milagre continue. Mas 23 semanas... a bebé é mesmo resistente! Ou os médicos negligentes?
NOTA: A menina acabou por morrer passadas quase 24 horas, como podem ler aqui. Mas não deixa de ser impressionante!
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terça-feira, 19 de agosto de 2008
domingo, 17 de fevereiro de 2008
Um post mais que XL sobre o aborto e sem ponta de badalhoquice
Evitei cuidadosamente este post durante um tempo porque não ia conseguir escrever fosse o que fosse com sentido. Isto porque estava com a sensibilidade no máximo por várias informações cruzadas de várias notícias sobre o tema. Quando estou com a sensibilidade tão exacerbada falo com o coração. Isso é bom em certas ocasiões que se querem irracionais, mas não em outras em que se quer racionalidade. E esta é uma altura para ser levada a sério.
Não vou usar argumentos de ninguém nem lei nenhuma. Isto é o meu ponto de vista e o assumir de responsabilidades pelo que fiz ao votar “sim” ao aborto. Também não vou usar imagens de abortos porque é horrível demais e qualquer um pode “googlar” vários termos e encontrar algumas das imagens que eu vi. Como ia preparada, tinha o coração fechado já: o horror tem que ser controlado, e eu consegui por auto-defesa. Mas parei a busca, porque não sou assim tão forte e controlada.
Antes de prosseguir, eu sou contra o termo IVG e não o usarei nunca: significa o mesmo que aborto e não o torna menos grave, por isso para quê andar a fazer festinhas às palavras?
Antes de mais o que acredito:
1. A vida começa no momento da concepção. É o momento em que o homem e a mulher verdadeiramente se fundem num ser único e irrepetível.
2. A mulher tem o direito de dispor do seu corpo. Mas um bebé não é o seu corpo: é outro corpo sobre o qual nem ela nem ninguém tem direito de decidir se vive ou morre.
3. A informação está aí: como alcançar maior satisfação sexual, como evitar uma gravidez e uma DST. Em teoria não há desculpa para uma gravidez não programada (note-se a subtileza: em teoria!!!).
4. Uma criança deficiente ou uma não desejada têm tanto direito à vida como uma criança querida. Não há vidas de primeira e de segunda.
Acho que como princípios estas 4 chegam e cobrem tudo. Parece-me simples e nem sequer me parecem discutíveis, venha quem vier. Mas isto implicaria que eu votaria “não”. Mais que isso, implicaria que eu fizesse campanha contra as regras de aborto em vigor anteriormente.
Para baralhar a coisa ainda mais, vamos ver o que eu faria ou não:
1. Eu nunca tomaria a pílula do dia seguinte. Porque pode ter havido concepção e eu estaria a matar. É, em princípio, um método abortivo.
2. Em princípio eu abortaria uma criança com certas deficiências. Isto faz sentido? Aparentemente não. Aliás, não faz sentido de todo! Mas eu fa-lo-ia por motivos extremamente pessoais e em certas circunstâncias. Agora não me perguntem quais porque eu não quero saber: rezo para nunca na vida ser confrontada com uma questão dessas. Acho que nem os ateus terão coragem de rir desta abordagem de rezar: é tão aleatório como outra coisa qualquer, e ninguém no seu perfeito juízo quer ter uma criança com deficiências.
3. Eu não abortaria de uma gravidez não planeada. Foi sempre ponto assente na minha consciência e sempre soube que os meus pais me apoiariam se me acontecesse uma coisa dessas.
Se a minha vida estivesse em risco por uma gravidez eu poderia optar pela vida da criança. Não por ter ou não o direito, mas por não ter a certeza de conseguir viver com a escolha. Também rezo para nunca ter que decidir uma coisa destas.
4. Se uma amiga quisesse abortar e me falasse eu tentaria convencê-la a não o fazer. Iria ao ponto de me oferecer para ficar com a criança. Mas se não conseguisse, não a julgaria e apoiaria a sua decisão.
Já estão suficientemente confusos? Eu também! Sempre foi para mim tão claro e tão confuso assim. Sempre tive este tipo de opinião, mas nunca estive envolvida em dramas de nenhuma espécie. Por sorte e cuidado (mais do segundo, mas o primeiro ajuda sempre).
Contudo, eu gosto de me pôr nos pés de outros para imaginar o que faria e até que ponto é defensável o que se faz. Sempre soube que havia casos inenarráveis de vidas de mulheres para quem a única solução menos má é um aborto.
Votei “sim” por estes casos que não conheço e nem quero conhecer.
Votei “sim” por meninas-mulheres que são coagidas ou forçadas a não usar protecção porque o homem as enrola e estão emocionalmente frágil. Ele quer não perder sensibilidade. Ela quer agradar e demonstrar confiança e amor. Muita gente não tem ideia de quão frágeis são ou estão algumas mulheres. Não sabem como um homem só aponta para situações que controla. Implicando na mesma uma vida, é um erro demasiado grave. E uma menina-mulher assim tão sensível pode ser convencida a não querer abortar. Vou ignorar, por conveniência e por não querer fazer moralismo pelo castigo, que se arrisca a contrair uma DST. Uma amiga médica, quando ambas tínhamos 26 anos, veio desanimada do hospital quando se apercebeu da quantidade de mulheres da nossa idade com SIDA e só um companheiro ao qual sempre tinham sido fieis e no qual sempre tinham confiado.
Votei "sim" porque a maioria dos homens só quer saber da sua pila e não do que dela resulta. E ainda são capazes de se achar machos porque não fazem paneleirices como usar preservativos e foram capazes de fazer um filho (mas ela que o ature!). E a mulher pode não estar em condições de assumir um filho (sendo ponto assente que foi co-responsável por ele) nem a sociedade pronta para ajudá-la a assumi-lo.
Votei “sim” porque alguns casos poderiam ser reversíveis por uma palavra ou uma atitude de um profissional de saúde conscienciosos. Numa “abortadeira” este cuidado não existiria: o que interessaria seria o pagamento do aborto. Por isso tive esperança de que não fossem permitidas clínicas de aborto (mas não muita esperança: não sou assim tão parva!).
Irritou-me celebrar-se a vitória do “sim” como uma vitória da dignidade da mulher e de avanço dos direitos humanos. O tanas! Estamos numa fase avançadíssima da sociedade humana, em que existem métodos contaceptivos, solidariedade social, aceitação de mais comportamentos que os descritos no livro colectivo da moral (não escritos e escritos) e uma compreensão do que é uma gravidez. E reconhecer que ainda assim pode haver necessidade de fazer abortos é um avanço??? Com todo o respeito pelos ateus: pelo amor de Deus!!! É um retrocesso, uma declaração de incompetência. O que é que há para celebrar?
Uma celebração da vitória do “não” seria igualmente hipócrita. Porque autista. Porque sim. Nem vou alongar-me.
O que eu sempre soube que ia acontecer:
1. Mulheres que iam usar o aborto como método contraceptivo. Aqui eu não tenho toda a culpa: quem fez a lei devia ter prevenido isso, não eu ao votar “não”.
2. O aborto ilegal nunca iria acabar. Há gente muito marada. Mas não tive ilusões que iria diminuir e não me parece discutível.
3. A lei não implicaria nada em termos de melhorias de cuidados de saúde e de esforço informativo.
4. Que haveria mulheres que fariam um aborto contra a vontade do companheiro. E isto não é justo, porque o bebé é de dois. Só há um caso descrito de concepção virgem e nem toda a gente acredita.
Nos últimos dias li notícias que não me apanharam de surpresa porque sempre soube que iam acontecer: mulheres que em 6 meses de lei fizeram 2 abortos (o que me merece como comentário f******-se!), mulheres a quem foram dados (d-a-d-o-s, assim tipo o oposto de vendidos) métodos contraceptivos e que não ligaram puto, mulheres que não compareceram a consultas de ginecologia dadas para evitar mais casos desses, mulheres que não vão ao centro de saúde por vergonha de serem apontadas (não merece comentários) e uma mulher que matou um feto de 5 meses apesar de ser o segundo aborto e ser uma menina com acesso a informação.
Este último caso foi o que me bateu mais forte porque me fez sentir de forma pura e simplesmente animalesca e depois pensar mais objectivamente. Pensar se é crime, se recrimino, se tem que ser presa. Eu que defendo sempre as mulheres não consigo encontrar espaço no meu coração para a defender. Aquilo simplesmente não podia ter acontecido e nem havia necessidade para tal.
Não é sequer o caso que descrevi no post do filme romeno: é outra coisa inteiramente diferente! Não compreendo como é que alguém lhe deu comprimidos para o aborto. Não compreendo como é que colegas (mulheres, mães em potência) assistiram impávidas e serenas ao destruir de um bebé e só ficaram aflitas quando correu mal. Não entendo como é que não pediu ajuda! Simplesmente não me entra na cabeça! Aquilo não podia ter acontecido e a menina terá que ser punida! Dito isto, entramos no terreno escorregadio que é a justiça, a sua lentidão e a sua injustiça (não, eu não me enganei: era mesmo isto que eu queria dizer). E páro por aqui mesmo a análise a este caso.
Não conheço quem tenha feito um aborto. O que não significa que amigas minhas não o tenham feito. Simplesmente não sei de nenhuma. Lembro-me de uma amiga da minha irmã, mas essa história é horrível demais e acaba com ela morta e praticamente podre por dentro. Houve vários criminosos, mas só ela a punida pela lei natural. Eu era muito novinha quando isto aconteceu.
Conheço casos de mães solteiras que assumiram orgulhosa ou tristemente a gravidez. Vi-as apontadas como putas (e eu não costumo usar estas palavras por extenso) ou como heroínas. De pequenina sempre as achei heroínas e merecedoras de ajuda (não se esqueçam que eu tenho 33 anos e o meio em que eu vivia ainda era menos urbano em pequenina que agora). Conheço casos de companheiros que assumiram a gravidez e casamentos que resultaram felizes mesmo começando de um modo tão estranho. Uma das meninas tinha aí 16 ou 17 anos e ele aí uns 18 e sempre olhei para ela e para ele com uma admiração que só me coibi de exprimir porque não os conhecia bem. Eram pessoas com informação e meios, podiam perfeitamente ter ido a Espanha “tratar do assunto”.
Conheço ainda casos de pessoas que sabem que não foram desejadas e que eram para ter sido abortadas. Como é que uma mãe diz uma coisa dessas a um filho? Sobretudo quando era uma informação que não era necessária e as faz sentir... indesejadas. Uma delas tinha um certo ressentimento em relação à mãe, porque foi só o desejo do pai que impediu o aborto. Como é que ela sabia isso? Para que é que ela sabia isso?
Este post é comprido demais, que é para evitar falar muito mais no assunto. Porquê? Porque me dói! Sei o que votei, sempre soube as consequências e assumo-as hoje como há 1 ano. E como há 1 ano, estou satisfeita e insatisfeita com o assunto. Mas as coisas são como são e não há volta a dar-lhes.
Este post também é comprido demais porque não é para ser lido por qualquer um, mas só para quem quer mesmo. Eu queria e não queria escrevê-lo. Mas agora já está.
Não vou usar argumentos de ninguém nem lei nenhuma. Isto é o meu ponto de vista e o assumir de responsabilidades pelo que fiz ao votar “sim” ao aborto. Também não vou usar imagens de abortos porque é horrível demais e qualquer um pode “googlar” vários termos e encontrar algumas das imagens que eu vi. Como ia preparada, tinha o coração fechado já: o horror tem que ser controlado, e eu consegui por auto-defesa. Mas parei a busca, porque não sou assim tão forte e controlada.
Antes de prosseguir, eu sou contra o termo IVG e não o usarei nunca: significa o mesmo que aborto e não o torna menos grave, por isso para quê andar a fazer festinhas às palavras?
Antes de mais o que acredito:
1. A vida começa no momento da concepção. É o momento em que o homem e a mulher verdadeiramente se fundem num ser único e irrepetível.
2. A mulher tem o direito de dispor do seu corpo. Mas um bebé não é o seu corpo: é outro corpo sobre o qual nem ela nem ninguém tem direito de decidir se vive ou morre.
3. A informação está aí: como alcançar maior satisfação sexual, como evitar uma gravidez e uma DST. Em teoria não há desculpa para uma gravidez não programada (note-se a subtileza: em teoria!!!).
4. Uma criança deficiente ou uma não desejada têm tanto direito à vida como uma criança querida. Não há vidas de primeira e de segunda.
Acho que como princípios estas 4 chegam e cobrem tudo. Parece-me simples e nem sequer me parecem discutíveis, venha quem vier. Mas isto implicaria que eu votaria “não”. Mais que isso, implicaria que eu fizesse campanha contra as regras de aborto em vigor anteriormente.
Para baralhar a coisa ainda mais, vamos ver o que eu faria ou não:
1. Eu nunca tomaria a pílula do dia seguinte. Porque pode ter havido concepção e eu estaria a matar. É, em princípio, um método abortivo.
2. Em princípio eu abortaria uma criança com certas deficiências. Isto faz sentido? Aparentemente não. Aliás, não faz sentido de todo! Mas eu fa-lo-ia por motivos extremamente pessoais e em certas circunstâncias. Agora não me perguntem quais porque eu não quero saber: rezo para nunca na vida ser confrontada com uma questão dessas. Acho que nem os ateus terão coragem de rir desta abordagem de rezar: é tão aleatório como outra coisa qualquer, e ninguém no seu perfeito juízo quer ter uma criança com deficiências.
3. Eu não abortaria de uma gravidez não planeada. Foi sempre ponto assente na minha consciência e sempre soube que os meus pais me apoiariam se me acontecesse uma coisa dessas.
Se a minha vida estivesse em risco por uma gravidez eu poderia optar pela vida da criança. Não por ter ou não o direito, mas por não ter a certeza de conseguir viver com a escolha. Também rezo para nunca ter que decidir uma coisa destas.
4. Se uma amiga quisesse abortar e me falasse eu tentaria convencê-la a não o fazer. Iria ao ponto de me oferecer para ficar com a criança. Mas se não conseguisse, não a julgaria e apoiaria a sua decisão.
Já estão suficientemente confusos? Eu também! Sempre foi para mim tão claro e tão confuso assim. Sempre tive este tipo de opinião, mas nunca estive envolvida em dramas de nenhuma espécie. Por sorte e cuidado (mais do segundo, mas o primeiro ajuda sempre).
Contudo, eu gosto de me pôr nos pés de outros para imaginar o que faria e até que ponto é defensável o que se faz. Sempre soube que havia casos inenarráveis de vidas de mulheres para quem a única solução menos má é um aborto.
Votei “sim” por estes casos que não conheço e nem quero conhecer.
Votei “sim” por meninas-mulheres que são coagidas ou forçadas a não usar protecção porque o homem as enrola e estão emocionalmente frágil. Ele quer não perder sensibilidade. Ela quer agradar e demonstrar confiança e amor. Muita gente não tem ideia de quão frágeis são ou estão algumas mulheres. Não sabem como um homem só aponta para situações que controla. Implicando na mesma uma vida, é um erro demasiado grave. E uma menina-mulher assim tão sensível pode ser convencida a não querer abortar. Vou ignorar, por conveniência e por não querer fazer moralismo pelo castigo, que se arrisca a contrair uma DST. Uma amiga médica, quando ambas tínhamos 26 anos, veio desanimada do hospital quando se apercebeu da quantidade de mulheres da nossa idade com SIDA e só um companheiro ao qual sempre tinham sido fieis e no qual sempre tinham confiado.
Votei "sim" porque a maioria dos homens só quer saber da sua pila e não do que dela resulta. E ainda são capazes de se achar machos porque não fazem paneleirices como usar preservativos e foram capazes de fazer um filho (mas ela que o ature!). E a mulher pode não estar em condições de assumir um filho (sendo ponto assente que foi co-responsável por ele) nem a sociedade pronta para ajudá-la a assumi-lo.
Votei “sim” porque alguns casos poderiam ser reversíveis por uma palavra ou uma atitude de um profissional de saúde conscienciosos. Numa “abortadeira” este cuidado não existiria: o que interessaria seria o pagamento do aborto. Por isso tive esperança de que não fossem permitidas clínicas de aborto (mas não muita esperança: não sou assim tão parva!).
Irritou-me celebrar-se a vitória do “sim” como uma vitória da dignidade da mulher e de avanço dos direitos humanos. O tanas! Estamos numa fase avançadíssima da sociedade humana, em que existem métodos contaceptivos, solidariedade social, aceitação de mais comportamentos que os descritos no livro colectivo da moral (não escritos e escritos) e uma compreensão do que é uma gravidez. E reconhecer que ainda assim pode haver necessidade de fazer abortos é um avanço??? Com todo o respeito pelos ateus: pelo amor de Deus!!! É um retrocesso, uma declaração de incompetência. O que é que há para celebrar?
Uma celebração da vitória do “não” seria igualmente hipócrita. Porque autista. Porque sim. Nem vou alongar-me.
O que eu sempre soube que ia acontecer:
1. Mulheres que iam usar o aborto como método contraceptivo. Aqui eu não tenho toda a culpa: quem fez a lei devia ter prevenido isso, não eu ao votar “não”.
2. O aborto ilegal nunca iria acabar. Há gente muito marada. Mas não tive ilusões que iria diminuir e não me parece discutível.
3. A lei não implicaria nada em termos de melhorias de cuidados de saúde e de esforço informativo.
4. Que haveria mulheres que fariam um aborto contra a vontade do companheiro. E isto não é justo, porque o bebé é de dois. Só há um caso descrito de concepção virgem e nem toda a gente acredita.
Nos últimos dias li notícias que não me apanharam de surpresa porque sempre soube que iam acontecer: mulheres que em 6 meses de lei fizeram 2 abortos (o que me merece como comentário f******-se!), mulheres a quem foram dados (d-a-d-o-s, assim tipo o oposto de vendidos) métodos contraceptivos e que não ligaram puto, mulheres que não compareceram a consultas de ginecologia dadas para evitar mais casos desses, mulheres que não vão ao centro de saúde por vergonha de serem apontadas (não merece comentários) e uma mulher que matou um feto de 5 meses apesar de ser o segundo aborto e ser uma menina com acesso a informação.
Este último caso foi o que me bateu mais forte porque me fez sentir de forma pura e simplesmente animalesca e depois pensar mais objectivamente. Pensar se é crime, se recrimino, se tem que ser presa. Eu que defendo sempre as mulheres não consigo encontrar espaço no meu coração para a defender. Aquilo simplesmente não podia ter acontecido e nem havia necessidade para tal.
Não é sequer o caso que descrevi no post do filme romeno: é outra coisa inteiramente diferente! Não compreendo como é que alguém lhe deu comprimidos para o aborto. Não compreendo como é que colegas (mulheres, mães em potência) assistiram impávidas e serenas ao destruir de um bebé e só ficaram aflitas quando correu mal. Não entendo como é que não pediu ajuda! Simplesmente não me entra na cabeça! Aquilo não podia ter acontecido e a menina terá que ser punida! Dito isto, entramos no terreno escorregadio que é a justiça, a sua lentidão e a sua injustiça (não, eu não me enganei: era mesmo isto que eu queria dizer). E páro por aqui mesmo a análise a este caso.
Não conheço quem tenha feito um aborto. O que não significa que amigas minhas não o tenham feito. Simplesmente não sei de nenhuma. Lembro-me de uma amiga da minha irmã, mas essa história é horrível demais e acaba com ela morta e praticamente podre por dentro. Houve vários criminosos, mas só ela a punida pela lei natural. Eu era muito novinha quando isto aconteceu.
Conheço casos de mães solteiras que assumiram orgulhosa ou tristemente a gravidez. Vi-as apontadas como putas (e eu não costumo usar estas palavras por extenso) ou como heroínas. De pequenina sempre as achei heroínas e merecedoras de ajuda (não se esqueçam que eu tenho 33 anos e o meio em que eu vivia ainda era menos urbano em pequenina que agora). Conheço casos de companheiros que assumiram a gravidez e casamentos que resultaram felizes mesmo começando de um modo tão estranho. Uma das meninas tinha aí 16 ou 17 anos e ele aí uns 18 e sempre olhei para ela e para ele com uma admiração que só me coibi de exprimir porque não os conhecia bem. Eram pessoas com informação e meios, podiam perfeitamente ter ido a Espanha “tratar do assunto”.
Conheço ainda casos de pessoas que sabem que não foram desejadas e que eram para ter sido abortadas. Como é que uma mãe diz uma coisa dessas a um filho? Sobretudo quando era uma informação que não era necessária e as faz sentir... indesejadas. Uma delas tinha um certo ressentimento em relação à mãe, porque foi só o desejo do pai que impediu o aborto. Como é que ela sabia isso? Para que é que ela sabia isso?
Este post é comprido demais, que é para evitar falar muito mais no assunto. Porquê? Porque me dói! Sei o que votei, sempre soube as consequências e assumo-as hoje como há 1 ano. E como há 1 ano, estou satisfeita e insatisfeita com o assunto. Mas as coisas são como são e não há volta a dar-lhes.
Este post também é comprido demais porque não é para ser lido por qualquer um, mas só para quem quer mesmo. Eu queria e não queria escrevê-lo. Mas agora já está.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
4 meses, 3 semanas e 2 dias
Quem procura badalhoquices, não leia este post. Este é sério. Sério demais. Ponderei seriamente se devia escrevê-lo, mas decidi que queria partilhá-lo com vocês.
A mania do cinema alternativo (que já me fez chorar uns quandos bilhetes) fez-me ir na sexta à noite ver este filme romeno, de título 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Obviamente a sala estava cheia de lugares vazios (mas isso não me impediu, como nunca me impediu antes). Tinha lido vagamente que era sobre duas mulheres que iam tratar de um aborto na Roménia de 1987, onde tanto a contracepção como o aborto eram proibidas.
A memória é curta, e se hoje a Roménia é o país de adopção (temporária?) da Gipsy Queen e da Lula, o lugar de muitas novas oportunidades, de deslocalização de empresas que há poucos anos estavam mais a ocidente, há não tantos anos assim um monstro de nome Ceausescu governava aquele cantinho de mundo. Um monstro que se descobriu mais tarde tinha orfanatos com crianças depositadas a destinos piores que a morte.
A história do filme em si é simples: uma estudante universitária está grávida e a colega de quarto da residência vai com ela para a ajudar a abortar. Aborto mais que proibido e punido com prisão. O procedimento implica contactar o homem que fará o servicinho, arranjar um quarto de hotel e pagar-lhe (a isso iremos mais tarde).
Uma nota para as várias voltas que o filme dá, mostrando a pobreza dos cenários (o que me leva a pensar que o país ainda será assim), a corrupção de um mercado negro estudantil onde se arranjam cigarros a pílulas a sabonetes. E ainda a paranóia securitária, com bilhetes de identidade com detalhes como a residência temporária e que os cidadãos transportam consigo permanentemente. Mas a pobreza era pior ainda.
Quando no quarto do hotel com o homem que vai fazer o aborto, há uma sucessão de entendidos, mal-entendidos e subententidos: foi dito que era uma gravidez de 2 meses, mas é afinal de talvez mais de 4, as duas raparigas não são irmãs e o pagamento não é o que se pensava.
O primeiro momento em que considerei abandonar a sala deu-se no início da conversa: fala-se de como se faz o aborto e o que acontece. Não pensem que havia pormenores sórdidos a serem discutidos. Muito pelo contrário, a incerteza de tudo aquilo estava a dar cabo de mim: podia demorar 4 horas ou 3 dias, não disse bem o que era "a sonda", o que levava, dava a entender que podia sangrar muito ou pouco e que podia ou não correr mal e não disse "quanto" dóía nem muito bem o que fazer se algo corresse mal (nem o que "correr mal" significava). Ou seja, não se ficou a saber nada. Mas não devia passar-se nada, porque afinal muita gente já tinha feito isso. E não era discutível recuar.
Enquanto parte de mim queria gritar para o ecrã: POR FAVOR, NÃO FAÇAS ISSO (um gesto, para dizer o mínimo inútil, tanto por ser ficção como por não ser da minha conta), parte de mim estava a tentar controlar uma reacção física violenta que me pôs a considerar seriamente abandonar a sala.
Juro que fiquei seriamente enjoada (e isto nunca me aconteceu num filme): tive uma leve queda de tensão, e o jantar embrulhou-se-me no estómago. Considerei ir apanhar ar, eventualmente esvaziar o estómago, mas consegui ficar porque a conversa saiu daquele tema para virar para o pagamento e para o facto de o homem ter sido enganado: o tempo de gravidez não era os 2 meses combinados, mas talvez mais de quatro. A grávida embrulhou, embrulhou, o homem fez o mesmo e eu não me apercebi que o que ele estava a tentar dizer que a única coisa que queria como pagamento era comer as duas. Coisa que a amiga da grávida se apercebeu e se sacrificou pela amiga (mais tarde percebi porquê). Sorte estava com o período, pelo que não engravidaria. A devoção com que cada uma delas tomou banho depois do que fez (de novo, não se vê nada, mas sente-se a humilhação, a impotência e o desespero no ar, de tão densos que eram) é impressionante.
Nova cena que quase me fez decididamente sair pelo cinema fora: a coisa em si. É relativamente gráfico: o homem abre uma mala em que tem coisas como uma agulha de tricot (quase juro que não andaria a fazer uma camisola), uma navalha e luvas não estéreis (que palavra tão curiosa!). Tira um tubo que limpa com um líquido desinfectante (sabe Deus onde é que aquilo já esteve), insere-o na vagina da moça e usa-o para colocar um líquido qualquer que não diz o que é (e também não interessava: o aborto é para ir para a frente e é mesmo, independentemente de tudo). Acho que esta parte é bastante gráfica, mas não juro porque parte desta cena vi-a com a mão à frente dos olhos, que tirava para ler as legendas e verificar se já tinha acabado.
Quando ele sai ficam só as duas. A colega de quarto da grávida, depois da descarga de adrenalina que foi tudo o que aconteceu, fraqueja e começa a inquirir a amiga do porquê de tantas mentiras e imprecisões, ao que a outra responde de maneira vaga. Fica a dúvida se houve inocência ou intencionalidade. Mas não interessa: estão nisto juntas e é para ir até ao fim. Eu como espectadora ainda tenho um vislumbre de esperança que se decida tirar "a sonda", mas é evidente que não é isso que acontece.
As cenas seguintes são mais leves qualquer coisa: a colega de quarto da grávida vai ao aniversário da mãe do namorado. Apercebe-se (porque já se tinha apercebido, afinal é por isso que está onde está) de que poderia ser ela. Confronta o namorado com ter pensado só nele e no prazer dele um dia quando desafiou a sorte ao não interromper o coito a tempo e confronta-o com o que faria se fosse ela a engravidar. A resposta vaga e desajeitada dá-lhe a certeza que já tinha: ele nunca tinha pensado seriamente no assunto e era menino para se acobardar na hora. Fica-se a saber porque é que, apesar de todas as mentiras ela não fica zangada com a colega de quarto: se fosse ao contrário, a outra ajudá-la-ia. O que era mais que o que o namorado faria.
Ao chegar ao quarto dá-se a cena que me deveria ter impressionado mais... mas eu já estava anestesiada: o feto saiu. E de novo há pequenas subtilezas de gestos e de palavras. Se por um lado a mãe diz que "aquilo" já saiu e coloca "aquilo" no chão da casa de banho, longe da vista, quando ambas se debruçam sobre "aquilo" olham-no com um ar que é tudo menos indiferente. A imagem mostra um feto pequenino, uma criança em miniatura, mas nesta altura eu já não sinto nada por "aquilo": todo o resto do filme já me anestesiou para aquele momento.
Há um último problema: livrar-se do bebé para que não seja encontrado. A mãe pede para ela "o" enterrar (já não é "aquilo", mas "ele"), para não o deitar numa lixeira. Dignidade escusada, mas que parece significar muito. A colega de quarto pega-lhe com um carinho e um cuidado desnecessários e mete na bolsa. Claramente não planeou nada daquilo e acaba por fazer o que mandou o homem horroroso que fez aquilo: deitar de um tubo do lixo a partir do último andar, para que o corpinho se desfaça e não possa ser detectado.
No fim do filme as duas amigas estão juntas a jantar com um ar comprometido. E fazem um pacto de silêncio: nunca mais se vai falar no assunto.
Saí do filme semi-arrependida de o ter ido ver. Eu sou contra o aborto... e por assim ser votei "sim" no referendo. Faz sentido? Não! Senti-me mal das duas vezes que votei no referendo (ambas as vezes "sim"), e senti-me igualmente mal com o resultado deste (também de ambas as vezes). Porque qualquer das opções estava pura e simplesmente errada. Mas não faz sentido uma mulher ter que passar por uma coisa destas. Crime nenhum justifica esta humilhação, este perigo. Perigo de vida! No caso, a contracepção era mesmo proibida; no nosso país não era antes do referendo, mas mesmo assim as coisas acontecem. A ter que ser mesmo, que ao menos se faça uma coisa errada (no MEU ponto de vista, como EU acho que veria as coisas, mas nunca estive na situação, pelo que EU não posso pensar como reagiria) na segurança relativa de um consultório médico. Onde poderá haver alguém que faça mudar de ideias e/ou ajudar a que o mesmo não volte a suceder. Sobretudo, longe de vampiros como este homem, a que uma mulher tem que se sujeitar porque está ou pensa que está vulnerável.
Ser mulher é complicado e maravilhoso. Não creio que homem nenhum visse o filme como eu o vi: não seria capaz! Um por outro conseguiria sentir algo semelhante (são esses homens tão poucos como maravilhosos e um deles é meu pai), mas nunca se conseguiria identificar com a situação daquela maneira.
A parte boa é que eu vi o filme com um misto de optimismo e cautela (o filme abalou-me mas não me deitou abaixo, ao ponto de eu ter completado as respostas ao consultório sexual depois de chegar a casa do cinema). Por um lado, aquela Roménia já não existe. Ao ponto de eu me ter esquecido que existia. Por outro lado, a História está cheia de exemplos de retrocessos nos direitos dos homens. E então das mulheres nem se fala. Em sintonia com o livro que estou a ler e com questões que tenho acompanhado em blogues onde se aprende mais do que aqui, a febre religiosa leva o mais das vezes a que as mulheres sejam culpadas de tudo e mais alguma coisa: a mulher sempre foi a fonte de pecado, e sendo assim tem que arcar com as culpas do que efectivamente fez, do que poderia ter feito e com o que fizeram todas as mulheres.
Por outro lado, a nossa sociedade ocidental judaico-cristã mas tendencialmente laica permite avanços (digo, retrocessos) com "respeitar" culturas (porque associadas a religiões) que impoem a mulheres casamentos arranjados e usos de burkas ou simplesmente lenços na cabeça. Liberdade religiosa é uma coisa, mas temos que definir o que é liberdade pessoal. E o que é a nossa liberdade pessoal na nossa sociedade (não é o mesmo que racismo ou intolerância, mas os nossos valores). Quando é que isto evoluirá para forçarem as nossas mulheres a usarem véus também? Pode parecer rebuscado... mas também o foram regimes que já cairam e outros que ainda não.
Livre é esta sociedade em que uma mulher escreve badalhoquices, apesar de pela piada e a reserva do resto da sua vida se esconder atrás de um nickname. Quando se queixaram da nossa sociedade (que tem imensos defeitos), lembrem-se disso.
E hoje, para relaxar, vi o Sweeney Todd: tinha montes de sangue e mortes, mas era tudo a fingir e fruto da imaginação livre e delirante do meu amigo Tim Burton.
Amanhã ou depois escreverei outro post mais ligeirinho e de volta ao estilo deste blogue.
A mania do cinema alternativo (que já me fez chorar uns quandos bilhetes) fez-me ir na sexta à noite ver este filme romeno, de título 4 meses, 3 semanas e 2 dias. Obviamente a sala estava cheia de lugares vazios (mas isso não me impediu, como nunca me impediu antes). Tinha lido vagamente que era sobre duas mulheres que iam tratar de um aborto na Roménia de 1987, onde tanto a contracepção como o aborto eram proibidas.
A memória é curta, e se hoje a Roménia é o país de adopção (temporária?) da Gipsy Queen e da Lula, o lugar de muitas novas oportunidades, de deslocalização de empresas que há poucos anos estavam mais a ocidente, há não tantos anos assim um monstro de nome Ceausescu governava aquele cantinho de mundo. Um monstro que se descobriu mais tarde tinha orfanatos com crianças depositadas a destinos piores que a morte.
A história do filme em si é simples: uma estudante universitária está grávida e a colega de quarto da residência vai com ela para a ajudar a abortar. Aborto mais que proibido e punido com prisão. O procedimento implica contactar o homem que fará o servicinho, arranjar um quarto de hotel e pagar-lhe (a isso iremos mais tarde).
Uma nota para as várias voltas que o filme dá, mostrando a pobreza dos cenários (o que me leva a pensar que o país ainda será assim), a corrupção de um mercado negro estudantil onde se arranjam cigarros a pílulas a sabonetes. E ainda a paranóia securitária, com bilhetes de identidade com detalhes como a residência temporária e que os cidadãos transportam consigo permanentemente. Mas a pobreza era pior ainda.
Quando no quarto do hotel com o homem que vai fazer o aborto, há uma sucessão de entendidos, mal-entendidos e subententidos: foi dito que era uma gravidez de 2 meses, mas é afinal de talvez mais de 4, as duas raparigas não são irmãs e o pagamento não é o que se pensava.
O primeiro momento em que considerei abandonar a sala deu-se no início da conversa: fala-se de como se faz o aborto e o que acontece. Não pensem que havia pormenores sórdidos a serem discutidos. Muito pelo contrário, a incerteza de tudo aquilo estava a dar cabo de mim: podia demorar 4 horas ou 3 dias, não disse bem o que era "a sonda", o que levava, dava a entender que podia sangrar muito ou pouco e que podia ou não correr mal e não disse "quanto" dóía nem muito bem o que fazer se algo corresse mal (nem o que "correr mal" significava). Ou seja, não se ficou a saber nada. Mas não devia passar-se nada, porque afinal muita gente já tinha feito isso. E não era discutível recuar.
Enquanto parte de mim queria gritar para o ecrã: POR FAVOR, NÃO FAÇAS ISSO (um gesto, para dizer o mínimo inútil, tanto por ser ficção como por não ser da minha conta), parte de mim estava a tentar controlar uma reacção física violenta que me pôs a considerar seriamente abandonar a sala.
Juro que fiquei seriamente enjoada (e isto nunca me aconteceu num filme): tive uma leve queda de tensão, e o jantar embrulhou-se-me no estómago. Considerei ir apanhar ar, eventualmente esvaziar o estómago, mas consegui ficar porque a conversa saiu daquele tema para virar para o pagamento e para o facto de o homem ter sido enganado: o tempo de gravidez não era os 2 meses combinados, mas talvez mais de quatro. A grávida embrulhou, embrulhou, o homem fez o mesmo e eu não me apercebi que o que ele estava a tentar dizer que a única coisa que queria como pagamento era comer as duas. Coisa que a amiga da grávida se apercebeu e se sacrificou pela amiga (mais tarde percebi porquê). Sorte estava com o período, pelo que não engravidaria. A devoção com que cada uma delas tomou banho depois do que fez (de novo, não se vê nada, mas sente-se a humilhação, a impotência e o desespero no ar, de tão densos que eram) é impressionante.
Nova cena que quase me fez decididamente sair pelo cinema fora: a coisa em si. É relativamente gráfico: o homem abre uma mala em que tem coisas como uma agulha de tricot (quase juro que não andaria a fazer uma camisola), uma navalha e luvas não estéreis (que palavra tão curiosa!). Tira um tubo que limpa com um líquido desinfectante (sabe Deus onde é que aquilo já esteve), insere-o na vagina da moça e usa-o para colocar um líquido qualquer que não diz o que é (e também não interessava: o aborto é para ir para a frente e é mesmo, independentemente de tudo). Acho que esta parte é bastante gráfica, mas não juro porque parte desta cena vi-a com a mão à frente dos olhos, que tirava para ler as legendas e verificar se já tinha acabado.
Quando ele sai ficam só as duas. A colega de quarto da grávida, depois da descarga de adrenalina que foi tudo o que aconteceu, fraqueja e começa a inquirir a amiga do porquê de tantas mentiras e imprecisões, ao que a outra responde de maneira vaga. Fica a dúvida se houve inocência ou intencionalidade. Mas não interessa: estão nisto juntas e é para ir até ao fim. Eu como espectadora ainda tenho um vislumbre de esperança que se decida tirar "a sonda", mas é evidente que não é isso que acontece.
As cenas seguintes são mais leves qualquer coisa: a colega de quarto da grávida vai ao aniversário da mãe do namorado. Apercebe-se (porque já se tinha apercebido, afinal é por isso que está onde está) de que poderia ser ela. Confronta o namorado com ter pensado só nele e no prazer dele um dia quando desafiou a sorte ao não interromper o coito a tempo e confronta-o com o que faria se fosse ela a engravidar. A resposta vaga e desajeitada dá-lhe a certeza que já tinha: ele nunca tinha pensado seriamente no assunto e era menino para se acobardar na hora. Fica-se a saber porque é que, apesar de todas as mentiras ela não fica zangada com a colega de quarto: se fosse ao contrário, a outra ajudá-la-ia. O que era mais que o que o namorado faria.
Ao chegar ao quarto dá-se a cena que me deveria ter impressionado mais... mas eu já estava anestesiada: o feto saiu. E de novo há pequenas subtilezas de gestos e de palavras. Se por um lado a mãe diz que "aquilo" já saiu e coloca "aquilo" no chão da casa de banho, longe da vista, quando ambas se debruçam sobre "aquilo" olham-no com um ar que é tudo menos indiferente. A imagem mostra um feto pequenino, uma criança em miniatura, mas nesta altura eu já não sinto nada por "aquilo": todo o resto do filme já me anestesiou para aquele momento.
Há um último problema: livrar-se do bebé para que não seja encontrado. A mãe pede para ela "o" enterrar (já não é "aquilo", mas "ele"), para não o deitar numa lixeira. Dignidade escusada, mas que parece significar muito. A colega de quarto pega-lhe com um carinho e um cuidado desnecessários e mete na bolsa. Claramente não planeou nada daquilo e acaba por fazer o que mandou o homem horroroso que fez aquilo: deitar de um tubo do lixo a partir do último andar, para que o corpinho se desfaça e não possa ser detectado.
No fim do filme as duas amigas estão juntas a jantar com um ar comprometido. E fazem um pacto de silêncio: nunca mais se vai falar no assunto.
Saí do filme semi-arrependida de o ter ido ver. Eu sou contra o aborto... e por assim ser votei "sim" no referendo. Faz sentido? Não! Senti-me mal das duas vezes que votei no referendo (ambas as vezes "sim"), e senti-me igualmente mal com o resultado deste (também de ambas as vezes). Porque qualquer das opções estava pura e simplesmente errada. Mas não faz sentido uma mulher ter que passar por uma coisa destas. Crime nenhum justifica esta humilhação, este perigo. Perigo de vida! No caso, a contracepção era mesmo proibida; no nosso país não era antes do referendo, mas mesmo assim as coisas acontecem. A ter que ser mesmo, que ao menos se faça uma coisa errada (no MEU ponto de vista, como EU acho que veria as coisas, mas nunca estive na situação, pelo que EU não posso pensar como reagiria) na segurança relativa de um consultório médico. Onde poderá haver alguém que faça mudar de ideias e/ou ajudar a que o mesmo não volte a suceder. Sobretudo, longe de vampiros como este homem, a que uma mulher tem que se sujeitar porque está ou pensa que está vulnerável.
Ser mulher é complicado e maravilhoso. Não creio que homem nenhum visse o filme como eu o vi: não seria capaz! Um por outro conseguiria sentir algo semelhante (são esses homens tão poucos como maravilhosos e um deles é meu pai), mas nunca se conseguiria identificar com a situação daquela maneira.
A parte boa é que eu vi o filme com um misto de optimismo e cautela (o filme abalou-me mas não me deitou abaixo, ao ponto de eu ter completado as respostas ao consultório sexual depois de chegar a casa do cinema). Por um lado, aquela Roménia já não existe. Ao ponto de eu me ter esquecido que existia. Por outro lado, a História está cheia de exemplos de retrocessos nos direitos dos homens. E então das mulheres nem se fala. Em sintonia com o livro que estou a ler e com questões que tenho acompanhado em blogues onde se aprende mais do que aqui, a febre religiosa leva o mais das vezes a que as mulheres sejam culpadas de tudo e mais alguma coisa: a mulher sempre foi a fonte de pecado, e sendo assim tem que arcar com as culpas do que efectivamente fez, do que poderia ter feito e com o que fizeram todas as mulheres.
Por outro lado, a nossa sociedade ocidental judaico-cristã mas tendencialmente laica permite avanços (digo, retrocessos) com "respeitar" culturas (porque associadas a religiões) que impoem a mulheres casamentos arranjados e usos de burkas ou simplesmente lenços na cabeça. Liberdade religiosa é uma coisa, mas temos que definir o que é liberdade pessoal. E o que é a nossa liberdade pessoal na nossa sociedade (não é o mesmo que racismo ou intolerância, mas os nossos valores). Quando é que isto evoluirá para forçarem as nossas mulheres a usarem véus também? Pode parecer rebuscado... mas também o foram regimes que já cairam e outros que ainda não.
Livre é esta sociedade em que uma mulher escreve badalhoquices, apesar de pela piada e a reserva do resto da sua vida se esconder atrás de um nickname. Quando se queixaram da nossa sociedade (que tem imensos defeitos), lembrem-se disso.
E hoje, para relaxar, vi o Sweeney Todd: tinha montes de sangue e mortes, mas era tudo a fingir e fruto da imaginação livre e delirante do meu amigo Tim Burton.
Amanhã ou depois escreverei outro post mais ligeirinho e de volta ao estilo deste blogue.
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