Tenho uma confissão importante a fazer: não sou competente para ter bolachas em casa! Nem na bolsa. Em suma, não competente para ter bolachas! De todo!
Andei anos e anos sem ter pacotes de bolachas em casa. Aliás, a minha cozinha é uma pobreza: montes de legumes, toneladas de fruta, arroz, massa, sal (que me dura anos), cereais para pequeno almoço (daqueles que parecem palha, que são os que eu gosto mesmo), leite, iogurtes, café e chá. Acho que me esqueci de um par de coisas, mas se estão a perguntar pelo açúcar... não tenho! O último pacote de açúcar que tive endureceu e tive uma certa dificuldade em deitar aquilo fora sem partir o frasco.
Mas bolachas... nicles. E eu tinha-me esquecido porquê. Até um dia destes, quando tive a ideia peregrina de namorar um pacote de bolachas todo XPTO super promix. Era daqueles que tem vitaminas para não engripar durante 10 anos, ferro suficiente para cagar uma enxada e fibras para fazer uma corda para depois usar para saltar e gastar as poucas calorias que aquilo tem. Por bolacha, naturalmente. Ou seja, das que faz bem a tudo e mal a nada. O que também me fez lembrar o ar triunfante com que uma vizinha com o perímetro abdominal de um embondeiro centenário me disse que comia uns cereais para o pequeno almoço com 8 vitaminas e ferro. Não sei explicar porquê, mas o perímetro abdominal dela continuou igual (mesmo porque ela não especificou quantos pacotes daquilo comia por dia).
Ora eu e o pão temos uma relação de amor-ódio: eu amo-o em quase todas as suas variantes (menos aquelas porcarias de aviário, como Bimbos e Panricos e o carago) e ele odeia-me porque me faz engordar (nem é de o comer: é só de olhar para ele!). O que implica que de vez em quando tenho que cortar radicalmente relações com ele, mas acabo por reatar a nossa relação doentia e muito pouco saudável para o meu lado, caindo-lhe nos braços e pedindo-lhe que me perdoe.
Refira-se que a minha relação com o pão é (como todas as que envolvem outro tipo de pães) de exclusividade e dedicação absoluta: nada se mete no meio de nós! Nem manteiga (que odeio), nem doces, nem marmelada. Quando muito convido queijo para o bacanal, mas a manteiga fica longe. Bem longe!
E as bolachas? Bem, as bolachas surgiram num momento em que eu considerava trair o pão. Substituí-lo por sucedâneos mais controláveis: duas bolachinhas sempre seria um prejuízo menor que um pão! Diz ela...
Flashback ao tempo em que tinha uma colega meia anoréctica (já o tinha sido) e completamente destrambelhada. Ao dar conta que eu estava em meia dieta até os olhos se lhe riram e lixou-me o juízo com quantas calorias tinha cada bolacha de cada raça, e a maçã e o pêssego, e como dormindo mais estava menos tempo a comer (???), por isso engordava menos, mas que por outro lado dormindo menos queimaxa mais calorias e por aí adiante (eu quando morrer vou direitinha para o céu). Tudo bem até que falou do meu adorado pão e como era horrível porque engordava imenso. Tive que a mandar calar: ninguém fala mal do meu amado sem levar troco. Eu sei que a relação é doentia e eu não tenho vantagem nenhuma nela senão um prazer fugaz. Mas cada qual é para o que nasce. (Isto é a parte risível. A parte que não é foi que ela voltou à anorexia uns anos depois e só eu é que parecia dar conta e dar-lhe para trás. Depois isolou-se e nunca mais lhe pus a vista em cima. Mas era maluca à mesma, todos os dias, várias vezes ao dia.)
Sucede que... quem é que come duas bolachinhas? Bolachas são bem pior que pão: enquanto houver uma no pacote (mmm... que boa palavra para um trocadilho) não há gaja que aguente.
O pessoal ainda faz pacotinhos mais pequenos, só com 4 ou 8 bolachas em cada um, mas não adianta. Ou seja, bani de novo as bolachas de casa. Se não sou em condições de as ter, não tenho! É assim tão simples e aplica-se aos chocolates e outras tentações comestíveis e não comestíveis. No trabalho tenho uma moça a quem peço "emprestada" uma bolacha de vez em quando e a quem de vez em quando dou um pacote (não o meu pacote, para as mentes mais porcas) para ela não ter prejuízo.
A parte boa é que sei perfeitamente que não gosto assim tanto de bolachas: é mesmo só o tique nervoso de estar sempre a tirar mais uma e mentir a dizer que é a última. Por isso o prejuízo não é nenhum.