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domingo, 31 de agosto de 2008

"Está só a acabar de se vestir"

Isto é uma frase poderosíssima! Sobretudo quando é fornecido o contexto. Mas para isto ter mesmo piada vou dar-vos várias hipóteses e vocês é que têm que adivinhar onde é que eu ouvi isso!

1. Foi o que disse o empregado de mesa do bar de stip quando lhe pedi para convidar o stripper para se juntar a mim;

2. Estava numa ménage à trois e isto foi o que o nº 2 me disse do nº 3, porque tínhamos que ir às compras (olhem que ainda há saldos engraçados nesta altura!);

3. Foi o que disse a mocinha do restaurante quando eu e o restante grupo perguntamos se a comida demorava;

4. Foi o que me disse a vizinha quando eu lhe perguntei para falar com o marido para ele tirar o carro que estava a bloquear a minha garagem;

5. Foi o que disse o apresentador quando o espectáculo do Joaquin Cortés estava a demorar um bocadinho (sim, ontem o Joaquin Cortés actuou em Matosinhos);

6. Foi o que disse uma amiga minha para a empregada da loja quando eu estava a demorar muito tempo no provador.

And the winner is... ... ... opção 3! E sim, eu também não entendi o que é que uma coisa tinha que ver com a outra. O que não impediu que eu pensasse e uma das pessoas que estava comigo dissesse em voz alta "se tiver natas, não quero!".

sábado, 23 de agosto de 2008

Objectivos diferentes

Na vida há que ter objectivos! Nas pequenas e grandes coisas. Ser sedutor, pedir com jeitinho em vez de ser à bruta. Por vezes fazendo com que os outros nem se apercebam que se estão a pôr a jeito para conseguirmos subir mais alto e chegarmos onde queremos.



Em suma, às vezes é preciso pisar os outros para chegar ao nosso objectivo!

domingo, 13 de julho de 2008

O império dos sentidos

Hoje ao fim da tarde fui a uma esplanada onde costumo ir. Quase toda a gente já tinha debandado da enchente de domingo à tarde, pelo que disfrutava de uma espécie de exposição pública com privacidade em virtude da falta de audiência. Sentia-me melancólica, como me sinto frequentemente em fins de tarde com a luz a diminuir.

Os sentidos completamente alerta apesar de uma sonolência característica de fim de fim de semana. Os olhos sorviam com prazer o resto de sol, já em tons de laranja antes de se ir aninhar no mar para acordar com toda a força amanhã, dia de trabalho e dar energia e boa disposição a quem trabalha.

Senti cada um dos tons da bebida que pedi, assim como o frio do copo que me beijava as pontas dos dedos e os lambia com a condensação fria e húmida. Soube-me bem. Ouvi com prazer todos os ruídos que diminuiam de intensidade em virtude da acalmia causada pela proximidade da hora de jantar.

Centrei-me no olfacto, um sentido subtil e frequentemente esquecido, sublimemente explorado no genial "O perfume" de Patrick Sueskind, a história do horrível Grenoille. Eu cheirava intensamente a protector solar e vagamente a um dos 50 cremes que coloco nas trombas e restante pele para que esta se esqueça que chegou aos 30 há um tempo e tente ficar mais ou menos onde estava ou menos. Vá ou não à praia, coloco sempre protector solar porque gosto do cheiro e gosto do sol, mas protejo-me dele.

Relaxei os outros sentidos e concentrei-me quase exclusivamente no olfacto. Senti um cheiro a mar e veio-me a nostalgia de quinzenas de praia no Algarve que a minha família fazia antes de ser prática comum. Abrindo as narinas, muito ao estilo Grenoille, o génio maligno do olfacto senti a essência de algo que revirei a minha memória para tentar localizar. Ah! Era certamente o cheiro de um búzio, ainda com o cheiro a mar, a caravelas afundadas com tesouros incalculáveis e grandes aventuras épicas.

Talvez uma lembrança trazida da praia por uma criança que mais tarde, quando eu for velhinha e tiver (mais) cabelos brancos, recordará com idêntica nostalgia os cheiros e sabores do mar e sol. E assim estava a sonhar com tesouros escondidos nas profundezas do mar, sereias e dragões quando sou despertada pelo dono do café que começa a conversar comigo.

- Está aqui um cheiro intenso ainda. É que um dia destes morreu um gato no jardim aí ao lado e ainda cheira um bocado. Não te incomoda?

Envergonhada, paguei à pressa e saí da esplanada. Dois pensamentos: tentar mandar calibrar o olfacto e não tentar arranjar um emprego na indústria de perfumes. A não ser que o aroma a gato morto seja a próxima tendência.

sábado, 21 de junho de 2008

Toda a noite...

Sussurravas-me ao ouvido. Eu afastava-te, absorta nos meus pensamentos. A cabeça ainda no trabalho e nas preocupações mesquinhas do dia-a-dia, sem tempo para ti. Outros dias haveria que te perseguiria pelo quarto fora, horas e horas até cair na cama ofegante, mas ontem à noite não me apetecia. Também tenho os meus dias, tens que compreender!

Tentaste aproximar-te de novo, de novo sussurrante. Eu cobri a cabeça para não te deixar beijar-me. Mas foste persistente, conseguiste insinuar-te sorrateiramente por entre os lencóis e deste-me uma mordidela no pescoço. Chupaste-me o sangue porque isso é que te dá vida, seu tratante. E depois tenho eu que andar com uma marca, que todos sabem do que é, para que toda a gente saiba o que me andaste a fazer! Começo a achar que nesta nossa relação dou mais do que recebo, mas já sabes que um dia isto ainda vai acabar mal. Não digas que não te avisei!

Pensei que depois de teres o que querias me deixasses em paz. Eu, que sou uma amante exigente, não queria nada contigo e com a tua fixação pela minha pele quente, sonolenta e levemente transpirada pela noite de início de Verão. Eu só queria dormir, descansar, retemperar forças. Mesmo porque isto já dura há uns dias.

Mas tu és teimoso e insaciável. Várias vezes durante a noite me acordaste com as tuas palavrinhas meigas e o teu toque leve. Sabes que me chegaste a magoar? Tens a noção disso? Ah, pois não! A ti só te interessa o teu prazer. Eu que me coce! São todos iguais!

Mordeste-me o rosto, o pescoço, os braços. E isso porque me protegi de ti, senão sabe-se lá o que me terias feito. Dormes de dia, vives de noite, não trabalhas e ainda me chateias. E sabes perfeitamente que a tua paixão não é correspondida.

No outro dia acordei com dores pelo corpo e a cabeça pesada por me teres dado a noite toda. Eu já não estou para estas andanças! E de repente vi-te: estendido ao meu lado na cama, quase morto. Cheio de sangue! Do meu sangue! A tua fome tinha sido a tua perdição: procuraste um cantinho meu mais saboroso e eu rebolei-me para cima de ti esmagando-te. Não entendo: sempre soubeste que eu era um pedaço mais pesada que tu, com que imprudência te meteste à morte?

Ainda mexias um bocadinho. Com um sorriso assassino, estendi o dedo indicador e coloquei-o sobre o teu corpo com força. Não voltas a tocar-me, seu insecto repugnante. Adeus mosquito! Vai para a mosquita que te pariu! Não me voltas a ferrar!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sábado à tarde

Velhos casais, pais divorciados com filhos, grupos de amigos e turistas. Todos apreciam as vistas do café e do lanche uns dos outros e já não dos cigarros.

Estacionaram os carros onde puderam, para aproveitar o sol que já parece de Verão. E ganham uma cor dourada ou uma face ruborizada, dependendo do sol e da pele.

Adolescentes de saia curta e laços no cabelo pavoneiam-se sob o olhar atento de todos os grupos e indivíduos presentes. E mesmo dos ausentes, que o desejo por algo intocado é estranhamente universal.

Mulheres sem segredos e homens que os pensam saber passeiam lado a lado. Ignoram-se.

Um olhar apressado pensa reconhecer um amigo. Não sabe se é mas parece e não arrisca. Entretanto anoitece.

O sol esconde-se e à noite uns procuram outras luzes, outros o sossego e o sussurro de uma televisão que debita mentiras e sons indistintos de uma vida que não é nossa.

Noutro local grupos de turistas, artistas e outros afins. Uma senhora com óculos de massa escreve poesia numa folha estreita de papel. Brinca com versos que põe na boca das personagens que vê e que inventa. Do que pensa, do que sente aquela gente que nada lhe é, mas que com ela naquele momento partilha um espaço, um café.

Um grupo de espanhóis fala alto. Para eles o mundo é um palco e eles a atracção.

O meu amor pela minha gaja

Estavas só, abandonada. No meio de outras sós e desacompanhadas. Ignorada.

Ou não te queriam ou não te podiam alcançar e por isso te desdenhavam. Que não eras nobre, embora nascida de boas famílias e gente honesta. Para alguns, fazias-te cara. E ali ficaste, no mesmo sítio, ali no alto. Possivelmente por estares no meio do mato, ignoraram-te.

Quando te vi, confesso que te desejei ardentemente. Representavas um abrir de asas diferente, o assumir definitivo de um estilo de vida que já se adivinhava há muito, mas ainda meio envergonhado porque nem sempre bem visto e às vezes só tolerado. E és linda!

Mas resisti. Porque é que afinal te desdenharam? Abriste-te a mim, mostraste-me os teus segredos e a perfeição de todos os teus pormenores. És muito bem feita, amor. Quando entrei em ti pela primeira vez o sol de Verão beijava-te. Mas se não te possuísse, continuarias a abrir-te a qualquer um ou qualquer uma. Não me devias fidelidade. Foi em grande parte esta a luz que se me fez na cabeça quando decidi ir até ao fim e possuir-te, criar contigo um compromisso. Serias só minha e um segredo durante muito tempo. Só tive o cuidado de partilhar este momento em que te decidi ter com uma pessoa muito querida.

Entrei de novo em ti e tu já definitivamente minha e em exclusivo, como se fosse a primeira vez. A cada vez que em ti entrava mais te amava. Estavas completamente nua (mas não exposta) e assim ficaste um tempo. Até que te comecei a comprar presentes e te vesti. Com o mínimo essencial, para melhor estudar as tuas formas, para que possa o mais dignamente aproveitar toda a tua beleza natural. Quero-te pouco enfeitada: a tua beleza é para mim, não para os outros. Só tens que me agradar a mim.

Hoje durmo contigo como se fosse mais um dia na nossa vida em comum. Como se fôssemos um velho casal, mas também como se fosse todos os dias a primeira vez. Tive outras antes de ti, algumas de um desprendimento inconsequente (sabíamos que não duraria) e outras só de uma noite.

Uma marcou-me porque me pertenceu completamente. Mas era muito mais estreita. Acabei com ela porque não me deu espaço. E eu, que sou uma mulher de compromissos, preciso de espaço! Teve um tempo muito próprio e foi especial, mas fartei-me. Esse tempo passou.

Agora tu, meu amor, contigo posso até consituir família ou pelo menos partilhar-te com amigos. Eu sei que farias isso por mim. Não te juro fidelidade eterna, mas sabes que serás sempre um dos meus grandes amores e um dos meus maiores investimentos nesta vida. E que volto para ti todas as noites. Afinal, és a minha morada... literalmente: é que este texto é sobre a minha casa...