Vem esta saga a propósito de um artigo da Cosmopolitan portuguesa intitulado “como se consegue o rabiosque perfeito”. Três considerações:
1. Rabiosque o carago! Só porque os ingleses chamam ao rabo toosh, booty e outros, não torna o termo “rabiosque” aceitável. Deixo aos meninos a escolha do “petit nom” preferido;
2. O artigo é uma porra! E vou dissecar isso mesmo “resumidamente” (lembrem-se da minha definição de “resumo”, a propósito do filme da Lady Chatterley) neste post;
3. A edição portuguesa da Cosmopolitan é uma revista muito educativa e ensina tudo sobre manualidades que dão valor acrescentado a qualquer mulher aos olhos de qualquer homem sexualmente activo: crochet, tricot, baínhas abertas, ponto matiz (o meu preferido: parece uma pintura com linhas), ponto cruz (que odeio, especialmente aqueles quadrinhos horrorosos), ponto grilhão, bilros, vários crivos, bordado inglês, da Madeira e Castelo Branco! Um dia destes tinha mesmo um artigo sobre patchwork, que me fascina e que quero (re)iniciar (o “re” é relativo, mas isso agora não interessa)! Mas sobre sexo... nada! Ninente! Nicles! Nicht! Rien!
À edição inglesa, em contrapartida, só falta a versão interactiva e o personal trainer! O que eu estou arrependida de não ter trazido umas quantas de Inglaterra! Mas o papel pesa toneladas e nem uma gaja pode ter tudo! Dito isto, estou muito a fim de comprar a cosmopolitan todos os meses para fazer a revista de imprensa, a bem da vida sexual das portuguesas e dos seus companheiros. Depende da vossa receptividade e aceito sugestões e críticas!
O artigo começa em derrapagem, continua em derrapagem e acaba em derrapagem. Ou seja, tem como vantagem (única, diga-se!) ser coerente! Nem sei por onde lhe hei-de pegar!
Ora bem, comecemos pelo início!
“Os seios sempre foram tidos como o exemplo perfeito da feminilidade. Mas porque os tempos mudaram, a atenção das mulheres concentra-se agora no rabo. Hoje querem-se arrebitados e a moda já chegou a Portugal”.
Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeem... Vamos por partes e ignoremos a falta de concordância gramatical (uma gralha acontece a qualquer uma e “herrar é umano”!
O exemplo perfeito da feminilidade é, por exemplo, não ter ideias peregrinas como esta: que ser feminina se resume a um aspecto só. Gaja que é gaja sabe que menos que perfeita não pode ser... para as revistas femininas e as outras gajas e gajos que não interessam ao menino Jesus. Gaja que é também esperta, chega à conclusão rapidamente que a perfeição está no museu de arte clássica e concentra-se em ser interessante para além do aspecto. Isto enquanto o cuida! Isso é que é ser feminina!
A atenção das mulheres está em todo o lado. Aliás, gaja que é gaja pensa em várias coisas ao mesmo tempo (a não ser cabeças de abóbora a dever umas horas de sono à cama e com muitas coisas em mente).
O “hoje querem-se arrebitados” é mais tarde contrariado no mesmo artigo, na secção “uma paixão com história”, onde fala da Antropologia (essa bela localidade) e como explica que a penetração era ancestralmente feita por trás (bem me parecia que a Antropologia era assim a puxar à badalhoquice) para depois passar para a penetração frontal. Gostava de saber exactamente a que hommo sapiens assim para o fóssil é que foram perguntar isso, mas adiante! Além de que esta gente não anda a ver muitos filmes pornográficos! Depois ainda fala das Vénus pré-históricas, de vários séculos de pintura de mulheres voluptuosas e acessórios de moda que fingiam rabos que na realidade não existiam (anquinhas, espartilhos, etc) e décadas de moda de grandes rabos já no século XX. Ou seja, “hoje” é relativo!
Suponho que a criatura que escreveu o artigo não tenha reparado que está num país latino, onde a maioria das mulheres não tem vocação para tábuas de engomar! Daí que “a moda já chegou a Portugal”... não vem inteiramente a propósito! Se a criatura olhasse em volta, veria possivelmente que a maioria das mulheres portuguesas têm ancas largas e rabos consideráveis. Como de resto os homens sempre gostaram e as mulheres nunca se convenceram, por causa de revistas de moda foleiras e roupas que querem que as mulheres se façam para a roupa em vez de se fazerem para as mulheres! O que (parecendo que não), não está certo! Mormente porque as mulheres pagam pela roupa e a roupa não contribui com um tostão para as mulheres! Ah, e porque as mulheres têm sentimentos, mas não nos vamos deter em paneleirices!
Ou seja, ainda não chegamos ao artigo sequer e isto já está feio!
O artigo em si tenta fazer é dizer às mulheres o que fazer e porquê. O “porquê” é fácil: porque as revistas de moda assim o dizem (ou porque não há mais que escrever?)!
Diz o artigo que se “usam” rabos grandes, de preferência arrebitados. Ora um rabo, uns seios, umas pernas não são acessórios de moda: são herdados dos nossos pais e desenvolvidos por nós (dentro das nossas limitações). Quando muito, os cabelos serão um acessório (porque mais moldáveis), mas mesmo assim ninguém se faz por suas mãos. Sendo assim, dizer que “as nádegas se querem voluptuosas, de preferência arrebitadas, nem que para isso seja preciso recorrer à cirurgia plástica” parece-me... nem sei! Desonesto? O que se faz ao rabo cirurgicamente modificado quando a moda de Primavera/Verão 2008 ditar rabos tipo tábua de engomar?
São apresentadas alternativas cirúrgicas (sempre com grande superficialidade) e a alternativa mais chata: a ginástica e o estilo de vida saudável! Ora, além de o rabo não ser um acessório de moda, o corpo não é um trapinho que se possa recortar e cozer, conforme se escreve nas revistas. Eu tenho uma alternativa mais radical: cada qual governa-se com o que tem e tenta fazer o que pode com o que tem. Só em caso de deformidade ou profunda insatisfação com algum aspecto do corpo se recorre a alguma coisa mais radical. Mas isto sou eu aqui a dizer!
Na secção “as famosas dão o exemplo” fala-se da Jennifer Lopez, Salma Hayek, Eva Longoria e da Beyoncé Knowles... latinas e negras... exemplo o tanas! A isto chama-se ser-se como se é (o que está certíssimo!)! Se bem que em algumas fotografias da Eva Longoria ela não tenha gordura suficiente no corpo para ter sequer um rabo decente; em contrapartida nessas mesmas fotografias parece ter uma cabeça estilo chupa-chupa e uns olhos que ocupam a cara toda! O que é uma pena, porque é uma mulher linda, mesmo assim!
A calinada do dia vai para a frase “veja-se o caso da Dove, que em vários anúncios celebra o corpo feminino em todo o seu esplendor, o que inclui ancas e nádegas bem definidas”... ora bem... o mote da Dove é “por uma beleza real” e mostra mulheres reais (o oposto é perfeitas). Mulheres reais por vezes têm celulite, rabos ligeiramente flácidos, excessos de gordura em qualquer lado, sardas, rugas... e sentem-se inseguras com a perfeição propagandeada pelas revistas de moda ao alcance de qualquer uma, nem que tenha que recorrer à cirurgia estética! E para isso usam estas revistas miúdas de 15 anitos a fingir terem 35! E inseguras. E escolhidas entre 1000. E carregadinhas de maquilhagem e efeitos especiais e retoques de photoshop! Aliás, há uma publicidade da Dove em que se mostra uma modelo perfeitamente normal e borbulhenta a passar por um processo longo de transformação de patinho feio em cisne.
O golpe de misericórdia no artigo é o fim: “o que pensam eles”. Quer dizer... e o que pensam elas??? Bem, o que pensa esta já sabem vocês!
OK, isto foi assim um bocado para o sério e ainda por cima sem imagens (sorry!). Mas hoje não estava inspirada. Amanhã há mais! Só para compensar, deixo uma foto ligeiramente afufalhada da Eva Longoria com o mulherão da Felicity Huffman! Quem é amiga, quem é?
