Este é um post que ando para escrever há muito tempo por causa de não me ter conseguido explicar no blogue da Joaninha neste post já do fim do mês passado (ver os comentários). No blogue do Ludwig hoje, mais uma vez, meti os pés pelas mãos e não fui capaz de me explicar, o que se torna um padrão perturbador. Particularmente para mim, que gosto de ser capaz de exprimir as minhas ideias de modo claro e inequívoco. Possivelmente o tema em si foi o problema.
Com a Joaninha falava-se de liberdade nos relacionamentos. A liberdade de ficar ou de ir embora. Meti os pés pelas mãos quando o que eu queria explicar era muito simples: para mim isso não é sequer questão! Para pessoa nenhuma de bem e de bom senso isso é questão! Se a pessoa quer ir embora vai, independentemente do motivo. Independentemente de ter razão, independentemente de tudo, simplesmente acaba por se ir embora se o quiser.
Quem fica pode chorar, pode chorar muito, pode chorar mesmo muito, pode pedir muito para essa pessoa não ir, pode mesmo ter actos irreflectidos ou irracionais dos quais se arrependerá mais tarde mas isso não altera o facto de que a pessoa se pode ir embora quando quer.
Eu acho que não sou obrigada a encarar isso com naturalidade quando isso me envolve a mim, porque me apego às pessoas. Apego-me às pessoas com intensidade demais para despegar com facilidade ou superficialidade. Quando me torno superficial, então é que temos um problema. Ou o problema resolvido, conforme a perspectiva. Não é fácil e é um processo que me chega a demorar anos. Mas não se altera o facto de que há liberdade para sair fisicamente da relação, mesmo porque isso (repito) nunca foi sequer uma questão. Emocionalmente é que controlo a coisa tão bem como qualquer um: não controlo. Tão simples como isso, pelo que não entendo a dificuldade em exprimir uma ideia e um facto tão simples. Ou talvez a extrema simplicidade seja precisamente o problema. Talvez porque simplicidade e facilidade não sejam sinónimos.
A lei do divórcio de que fala o Ludwig e a que tão acertadamente deu o título "treta da semana: o contrato" fala desta mesma realidade (daí eu me ter embrulhado), com mais uns pozinhos de complicação. Os pózinhos são as responsabilidades parentais e económicas, mas vou focar-me essencialmente no casamento em si. E a verdadeira treta é mesmo essa: o contrato. Um casamento não é um contrato mas um assumir público e perante a sociedade de que se quer viver como casal.
A base é a mesma: não se pode prender ninguém, nem querendo muito. Duas pessoas ficam juntas quando querem ficar juntas. Quando uma, seja por que motivo for, não quer... a relação acabou por definição! Custe a quem custar, dure os anos que durar a sarar uma feridas dessas e mesmo a aceitar... acabou! A lei acompanhou o sentimento: se só está um no casamento, então ele não existe por definição. Não se pode prender quem não quer estar preso.
A abolição da culpa é outra justiça flagrante. Mas abolir a culpa não é o mesmo que dar uma desculpa para fugir às responsabilidades. E aí a justiça tem que estar atenta e ser muito rápida.
O título deste post é uma resposta a quem diz que se deve "defender os valores da família": num casal, quando eles existem, não precisam de ser defendidos. Quem quer divorciar-se rapidamente, então deve divorciar-se rapidamente porque não quer ou não merece estar casado. Porque uma relação de amor é uma relação construída por dois adultos capazes de se safarem sozinhos no mundo. A jovem do meu post anterior sabe isto. Isto é inteiramente diferente de uma outra proposta de lei sobre meia adopção de crianças. Não encontro referências, mas nem me vou preocupar com isso porque o tema é tão parvo e despropositado que nem interessa a ninguém.
É que, se não se pode prender um adulto a outro, é de toda a conveniência prender uma criança a um adulto. É nesse adulto, alguém a quem chame pai ou mãe que ele vai encontrar grande parte da solidez e estrutura para uma vida futura. Como não é sério pretender prender um companheiro a uma relação, não é sério querer soltar um filho de um pai. A liberdade que é desejável e natural numa relação entre adultos não é válida para uma relação entre um pai e um filho. Pelo que um filho não deverá ser confrontado com qualquer tipo de "meio vínculo" com a pessoa a quem quer chamar pai.
Ninguém de bem quer um divórcio rápido e porque sim (se quiser não é de bem). Mas ninguém de bem quer uma adopção superficial e sem responsabilidades. Não se pode ninguém a ser casado; não se pode obrigar ninguém a ser pai. Mas não se pode obrigar quem quer ser pai a sê-lo pela metade.
E mais uma vez escrevi um texto com o qual não estou satisfeita porque não exprime completamente o que quero dizer, com palavras a mais e muito embrulhado; com a agravante de que possivelmente me vou arrepender de o ter publicado. Mas achei que o tinha que pôr cá para fora, mesmo porque foi um texto que me doeu a escrever.
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domingo, 20 de abril de 2008
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